Logo na primeira página do livro, somos apresentadas à sua narradora e protagonista: trata-se de uma mulher que deixou o Brasil durante os anos 1960 para viver em Paris, e que decidiu resgatar parte das lembranças da sua infância e juventude, vividas na pequena cidade de Paripiranga. Recuperando o próprio procedimento da recordação, o livro não avança sempre de forma linear.
A sequência dos acontecimentos é bastante fluída, permitindo avanços e recuos conforme a voz narrativa vai recuperando as imagens do passado. A reconstituição dessa história pela via da rememoração acompanha sobretudo o exercício da escrita, como anuncia Essa Menina – que é o nome pelo qual vamos conhecê-la, ao longo do livro.
O livro todo se organiza exatamente desse modo, adotando a forma de pequenos causos, relativamente fechados entre si e que giram em torno de algum detalhe ou acontecimento específico: a relação com a religião, com o corpo, com os pais, com as melhores amigas (e com suas respectivas famílias), com a escola, com as festas populares, com a cidade e, principalmente, com a História.
Conforme se avança na leitura, essa construção do livro vai causando um efeito interessante: vamos esquecendo que estamos diante de um romance, de um artefato escrito, e é como se passássemos a ouvir as histórias de alguma parente, uma tia ou uma avó. Da mesma forma como acontece quando estamos tentando nos lembrar de algo, é possível que iremos repetir algum detalhe ou omitir coisas que deveriam ter sido ditas anteriormente e que teriam nos esclarecido certas zonas de penumbra na história – como é o caso da história do pai d’Essa Menina – ou evitado alguns mal-entendidos.
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