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    Um trabalhador da notícia - Textos de Perseu Abramo

    Perseu Abramo

    Fundação Perseu Abramo
    1997
    376 páginas
    12h 32m
    ISBN-13: 9788576430438
    Português Brasileiro
    3
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    Por Alexandre Gambirásio. O jornalista que manteve a fé Está sendo lançada nesta semana, num volume de 350 páginas, Um trabalhador da notícia, uma preciosa coletânea de colunas, artigos e textos esparsos do jornalista Perseu Abramo, uma das figuras importantes da resistência ao autoritarismo na São Paulo dos anos 70 e 80. Mas essa foi apenas a etapa mais conhecida e gloriosa da longa e admirável carreira profissional do paulista Perseu Abramo. Este jornalista de grande cultura, fino intelecto e feroz ironia atravessou bravamente um período histórico tumultuado, mantendo-se rigorosamente fiel a seus ideais socialistas. Durante a época da ditadura, essa fidelidade apaixonada custou-lhe os bons empregos, as promoções e o renome nacional que certamente o seu talento traria, e não poucas vezes o colocou às portas da prisão. Com a volta da democracia, Perseu Abramo preferiu se empenhar profundamente na luta política, foi um dos fundadores do PT, o Partido dos Trabalhadores, e durante anos exerceu um papel influente nesse partido de esquerda. O que ajuda a explicar o título do livro. Perseu Abramo morreu em março de 1996, aos 66 anos. Organizada em vários blocos, que acompanharam cronologicamente as diferentes fases da acidentada carreira do jornalista, a coletânea oferece farta quantidade de escritos assinados por Perseu Abramo nos grandes jornais paulistas e na imprensa alternativa, no período que vai de 1960 até 1995. Serve de ilustração viva da própria evolução do jornalismo brasileiro. O jornalista tinha 31 anos em 1960, quando começou a brilhar na redação de O Estado de S. Paulo. Perseu Abramo não tinha ares de grande estrela. Achava o jornalismo uma atividade tão nobre quanto a do pedreiro. Mas era ele próprio um intelectual formado pelas melhores escolas públicas de São Paulo, os tradicionais Ginásio e o Colégio do Estado e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Nos anos 60, essas escolas representavam o passaporte para se juntar à elite intelectual da cidade. Fazia sentir-se muito forte ainda, nessa época, a influência da cultura francesa e, por conseguinte, a tradição do grande debate intelectual, como os que travava em Paris Jean-Paul Sartre. Nos anos 60, o jornalismo do Estadão era mesmo a atividade de uma elite intelectual, que se esmerava no texto bem escrito e até rebuscado, valorizava as alusões literárias e históricas e que, de modo geral, se considerava, no termo sartriano em moda, diretamente “engajada” no aperfeiçoamento político do país. Nesse contexto devem ser lidas as belas crônicas de Perseu Abramo no terceiro capítulo da coletânea. Elas revelam estilo forte, por vezes hiperbólico, grande facilidade vocabular (e Perseu escrevia depressa), controle preciso dos conceitos. O bom humor faz parte da ocasião. E há os jogos de palavras que evocam o monólogo sem pontuação do Ulisses, de James Joyce, que também estava em moda. A pérola da coleção – e uma das chaves para entender Perseu Abramo – é a crônica “Não” (pág. 49). O bom humor não está mais presente no capítulo seguinte, o mais longo e valioso, que reúne os escritos da fase mais conhecida da carreira de Perseu Abramo, quando editor de educação da Folha nos perigosos anos 70. A situação política se tornara sombria. Nestas 120 páginas predomina a inteligente luta de trincheira contra o autoritarismo: são colunas e artigos escritos debaixo das regras ambíguas da autocensura imposta pela ditadura militar. Aqui o leitor deve notar com cuidado a data de publicação de cada artigo, porque Perseu Abramo levava ao limite, segundo o momento político, a arte do risco calculado. Vale a pena ler “As aulas, amanhã” (pág. 123), em que ele desafia a proibição de noticiar uma epidemia de meningite em São Paulo, pelo truque de falar de outra coisa, o reinício do ano escolar. E é preciso ler “As bombas” (pág. 178). Mas não está apenas no tom insolente a riqueza deste capítulo, porque em todos os artigos dedicados à educação floresce de novo a vocação do jornalista para o debate das grandes questões. Passo a passo, ele discute a profunda transformação por que passa a educação brasileira a partir dos anos 70, quando esta deixa de ser elitista para se tornar de massa, sacrificando, como não podia deixar de ser, pela escassez de recursos, a qualidade do ensino. Muitas interrogações feitas por Perseu Abramo ecoam até hoje como válidas e não resolvidas. Nos anos 80, com a gradual instalação da reabertura democrática, Perseu Abramo dedica-se intensamente à política e ao PT. Os seus escritos, já fora da grande imprensa, mudam e ganham forte colorido partidário. Em alguns textos, o estilo vigoroso, mas sobrecarregado por tons proféticos, não deve fazer esquecer que Perseu Abramo cultivava a ironia e que, se exagerava na ênfase, poderia estar simplesmente se divertindo com a idéia de dar um susto no burguês. Nessa direção, vale ler alguma das crônicas publicadas em 1988 na Folha da Tarde; Perseu Abramo tenta a comunicação direta com a camada popular, utilizando uma linguagem quase panfletária. Em uma coluna, sinistramente ele adverte as classes dominantes de que os trabalhadores podem estar prontos “para chutar o pau da barraca”. Nos textos dos capítulos finais da coletânea, alguns dos quais escritos para leitura interna do PT, Perseu Abramo mostra seus dotes de polemista, em impiedosas análises da situação brasileira. Particular interesse têm os seus trabalhos sobre o papel da mídia e dos jornalistas no Brasil. A crítica contra a grande imprensa é feroz. Assessor de imprensa na gestão da prefeita Erundina em São Paulo, em 1989, ele se vê obrigado a lidar com a comunicação de um partido radical que atinge finalmente o poder. E fracassa nisso, por razões que explica no interessantíssimo ensaio “Quem não se comunica…” (pág. 311). Perseu Abramo mantém sua fé romântica nos ideais de um socialismo democrático incorrupto pelas práticas modernas. Uma vez no poder, aconselha ao PT, o governo petista “deve eliminar qualquer publicidade, propaganda, inauguração e, também, quaisquer dos símbolos e sinais que procurem materializar o marketing: o logotipo, o slogan, a marca, o desenho, a figura, a camiseta, o broche etc.”. Mas como imaginar a política brasileira sem a camiseta?

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    Bruno dos Anjos Seixas picture
    Bruno dos Anjos Seixas03/03/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um artesão dos fatos

    Nos últimos meses, por hobby e por necessidade, tenho me dedicado mais a conhecer a história da esquerda brasileira e, quando dá, a latino-americana. Dentre vários garimpos que realizo em sebos físicos e virtuais, com um pouco de perseverança, sempre é possível encontrar uma pérola escondida no meio da massa, e uma das melhores descobertas que fiz foi a existência da família Abramo. De origem italiana e anarcossindicalista, os Abramo migraram para o Brasil no começo do século XX, e enveredaram pelo marxismo de linha trotskista, e foi seguindo essa linha que encontraram destaque no cenário político e cultural brasileiro. São 5 irmãos: Athos Abramo, artista plástico; Lélia Abramo, atriz; e Fúlvio, Cláudio e Perseu Abramo como jornalistas. Por mais que discorde do trotskismo, tanto fiquei fascinado que acabei caindo no vale do hiperfoco (obrigado TEA) e com vontade de conhecer tudo dessa família. O primeiro passo foi ir ao encontro de Perseu, jornalista combativo, que muito escreveu na Folha e na imprensa independente ou partidária, quando os grandes jornais já não lhe davam espaço por sua militância. Conhecendo esse background, não é à toa que, quando o PT constituiu o think tank Fundação Perseu Abramo, o primeiro lançamento de sua editora tenha sido uma reunião de algumas das crônicas e artigos de Perseu Abramo, que também foi um dos fundadores do PT. Abrangendo escritos de 1960 e toda a década de 70 até meados da década de 90, os textos de Perseu colaram rápido em mim. De estilo combativo, direto, extremamente culto sem ser pedante, cada um dos artigos, crônicas e intervenções do livro acaba deixando sua marca, ainda que alguns mais do que outros. Quando a Folha o contrata para escrever sobre educação em 1972, o tratamento do tópico é bastante direto e dialoga não somente com a pedagogia, mas com uma astuta observação da vida social da cidade de São Paulo, que muitas vezes mistura a observação e o estudo formal do tema com críticas sociais, que começam sutis e despropositadas, mas que se tornam cada vez mais explícitas com o passar dos anos, como por exemplo, quando retrata o surto de meningite de 1974. O resultado é um mosaico da educação do período, abrangendo do infantil à pós-graduação, em exposições que infelizmente permanecem bastante atuais, ainda que não deixe o leitor a desalento, já que Perseu não é fatalista e sabe propor, ou ao menos sugerir, os rumos a serem tomados - é o que faz, por exemplo, quando desmascara o vestibular como sendo uma seleção que não mede a inteligência, mas sim o perfil de quem vai entrar no ensino superior. Saindo da parte da educação, que corresponde ao grosso do livro, temos ainda a militância partidária que o caracterizou a partir da década de 80, e que está exposta em intervenções em congressos, artigos em revistas partidárias e em jornais alternativos, onde aborda as questões mais urgentes de sua época, como a oposição ao governo Collor. Assim como os escritos educacionais, é uma boa forma de se aprender sobre o período do ponto de vista da época, embora devo admitir que, pessoalmente, é a parte que menos me envolvi no livro, por se tratar de algo mais restrito a militantes do PT. Ainda assim, não deixa de serem boas peças de jornalismo. A parte que mais gostei, no entanto, é a minoritária do livro inteiro, mas que tem a felicidade ser exposta logo no começo como uma carta de visitas. Se trata das crônicas que Perseu escreveu para o Estado de São Paulo no comecinho da década de 60. Chega a ser bizarro a quantidade de cronistas bons que o Brasil produz e que sequer tem esse gênero como seu destaque, e isso se repete com Perseu. Nessa parte, temos a chance de conhecê-lo um pouco mais sem as amarras das obrigações jornalísticas ou partidários, o que dá a chance de não apenas deixá-lo discorrer sobre todo tipo de tema mas também de escrever como quiser, e devo dizer, o resultado é belíssimo. A tríplice "Coletiva" e a resposta que dá à carta da menina Hilda são exemplos que dou nominalmente; se trata de uma parte do livro que, conforme me distanciava, cultivava mais e mais carinho, e não só porque nunca mais aparece. Ela é belíssima pois serve de introdução ao escritor, pra nos mostrar o que pensa e o que sente aquele que depois estará cercado de batalhas a lutar. No geral, é uma boa coletânea, e se o leitor não é historiador ou militante, serve pelo menos como um ótimo passatempo. Eu tenho que ressaltar isso porque me dou conta que, no fim das contas, as pessoas que podem realmente se interessar pelo livro acabam em um grupo bem restrito. Então, para além da política, o que resta aí? Para mim, resta a surpresa do único. Minha mãe sempre diz que a história da minha avó daria um filme, naquele tom de que é uma história digna e que deveria fazer sucesso, e não duvido que seja interessante, mas me parece que histórias assim acabam muito apropriadas por um grupo pequeno, e creio que isso ocorreu com esse livro - do contrário, seria uma baita burrice vender algo que não tem nenhuma versão digital por só 16,90, o preço que paguei na Traça. Mas para os desconhecidos, saibam que estão entrando em todo um universo próprio. E isso apenas as melhores coletâneas conseguem fazer. *Edição da Fundação Perseu Abramo, que inaugurou seu selo editorial. O livro contém uma apresentação de Kotscho e um prefácio de Marco Aurélio Garcia, e é organizado pela filha do autor, que introduz cada capítulo do livro com o contexto da época. No final, há um caderno de fotos e um índice remissivo.

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    Perseu Abramo

    Perseu Abramo (São Paulo, 17 de julho de 1929 — 6 de março de 1996) foi um sociólogo, professor e jornalista brasileiro.

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    São Paulo, Brasil

    Perseu Abramo