Minha Júlia, um conselho de amigo; Deixa em branco este livro gentil: Uma só das memórias da vida Vale a pena guardar, entre mil. E essa n’alma em silêncio gravada Pelas mãos do mistério há-de ser; Que não tem língua humana palavras, Não tem letra que a possa escrever. Por mais belo e variado que seja De uma vida o tecido matiz, Um só fio da tela bordada, Um só fio há-de ser o feliz. Tudo o mais é ilusão, é mentira, Brilho falso que um tempo seduz, Que se apaga, que morre, que é nada Quando o sol verdadeiro reluz. De que serve guardar monumentos Dos enganos que a esp’rança forjou? Vãos reflexos de um sol que tardava Ou vãs sombras de um sol que passou! Crê-me, Júlia: mil vezes na vida Eu coa minha ventura sonhei; E uma só, dentre tantas, o juro, Uma só com verdade a encontrei. Essa entrou-me pela alma tão firme, Tão segura por dentro a fechou, Que o passado fugiu da memória, Do porvir nem desejo ficou. Toma pois, Júlia bela, o conselho: Deixa em branco este livro gentil, Que as memórias da vida são nada, E uma só se conserva entre mil.
Folhas Caídas - Coletânea de Poesia Lírica
Almeida Garrett
Projecto Adamastor
2013
105 páginas
3h 30m
ISBN-13: 9789898698148
Português
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