Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida?Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira. Conceição Evaristo é mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.
Olhos d'água -
Conceição Evaristo
Olhos D'água - Conceição Evaristo
No conto de abertura, “Olhos d’água”, acompanha-se as memórias de uma filha que recordar-se de sua história com a mãe, mas que não consegue lembrar qual era a cor dos olhos dela e isso atormenta suas reflexões. Em “Ana Davenga”, segue-se a história de Ana, que, apreensiva, espera a chegada do marido em casa em uma noite em que tudo parece ter dado errado. “Duzu-Querança” trata sobre uma avó que observa os netos e reflete sobre seu passado marcado por vivências que a fazem desejar algo melhor para as crianças a sua frente. Em “Maria” acompanhamos uma mulher que reencontra o pai de seu filho em um assalto ao ônibus. “Quantos filhos Natalina teve?” é um difícil conto que segue Natalina desde sua primeira indesejada gravidez e a acompanha na reflexão sobre todas as crianças que ela já odiou ter e na única que ela realmente queria. “Beijo na face” segue Salinda, uma mulher que sabe que seu marido descobriu sua traição e que, junto ao leitor, aguarda o próximo passo da tensa e silenciosa briga entre eles. “Luamanda” acompanha as memórias dos diversos encontros sexuais vividos pela personagem idosa, mostrando a sua sexualidade na velhice. "O cooper de Cida" conta a história de Cida, que era uma moça que vivia correndo, mas que um dia, em uma das suas corridas matinais na praia, ela parou, tirou os tênis, afundou os pés na areia e admirou o mar, admirou tudo ao seu redor, o rosto das pessoas, na qual ela passava todos os dias, mas nunca havia olhado direito, perdeu tanto tempo nisso, em vez de correr, e voltou devagar para casa, seu amigo Pedro estava esperando ela assustado, como ela estava tão atrasada para ir trabalhar? Ele falava, falava, falava, Cida não estava prestando atenção, no final apenas disse, pode ir, não vou trabalhar hoje, vou dar um tempo para mim. Em “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos” temos uma criança que procura pela figurinha de um álbum e desce o morro sozinha bem na hora que um tiroteio começa. “Dí Lixão” tem um narrador masculino que em meio a um delírio causado por uma infecção, pensa no ódio que ele sentia pela mãe. “Lumbiá” segue os passos de mais uma criança que vende bala e flores nas ruas e que, ao deparar-se com a imagem de Jesus nos presépios de natal, vê naquele menino um reflexo de si mesmo. “Os amores de Kimbá” é outro dos contos que apresenta um personagem adulto, que envolve-se num relacionamento triplo com Beth e Gustavo, dois personagens de classe alta que lhe prometem o mundo, e cabe a Kimbá decidir qual deles o terá. “Ei, Ardoca” acompanha um depressivo protagonista que reflexe sobre sua relação com os trens e as estações que lhe acompanharam durante toda a vida. “A gente combinamos de não morrer”, o conto mais longo da coletânea, segue diversos relatos de uma vida coberta por ações, medos e segredos. E, por fim, “Ayoluwa, a alegria de nosso povo” apresenta uma analogia mitológica que relaciona o nascimento de uma criança com a chance de redenção de um povo cuja terra padeceu em agonia. [...] Eu estava com bastante expectativa sobre esse livro, muitos indicando, dizendo que choraram horrores (e eu como uma boa masoquista literária, já coloquei na minha lista de leitura), que tinham muitos aprendizados, críticas, que esse livro teria o potencial de se tornar um clássico... E quando eu li, tiveram muitos contos que eu gostei, principalmente os primeiros: Olhos d’água, Ana Davenga; O cooper de Cida, Lumbiá; Maria e Ei, Ardoca. No entanto, os outros não me cativaram, e foram bem cansativos, principalmente: Luamanda e o maior deles, A gente combinamos de não morrer. Por menor que o livro seja, eu demorei bastante para finalizá-lo. Foi uma leitura boa, mas não arrebatadora, como muitos fazem parecer.
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