"Ramón Budiño viveu toda a sua vida à sombra do pai, Edmundo, homem poderoso e autoritário, que ele odeia e deseja ver morto. «Eliminar o velho» talvez seja mesmo a maior obsessão da medíocre vida de Ramón. A sua história, marcada por um vaivém entre o presente e o passado, por um questionar sobre tudo o que o rodeia, a pátria, a revolução, o amor, o sexo, o seu lugar na sociedade e, sobretudo, pela falta de coragem para «eliminar o velho» é o espelho de um país que não tolera gestos dramáticos, e que está mergulhado numa grave crise politica e social sem um fim à vista. Ramón Budiño viveu toda a sua vida à sombra do pai, Edmundo, homem poderoso e autoritário, que ele odeia e deseja ver morto. «Eliminar o velho» talvez seja mesmo a maior obsessão da medíocre vida de Ramón. A sua história, marcada por um vaivém entre o presente e o passado, por um questionar sobre tudo o que o rodeia, a pátria, a revolução, o amor, o sexo, o seu lugar na sociedade e, sobretudo, pela falta de coragem para «eliminar o velho» é o espelho de um país que não tolera gestos dramáticos, e que está mergulhado numa grave crise politica e social sem um fim à vista."
Obrigada pelo lume
Mario Benedetti
um peculiar conceito da felicidade
Obrigada pelo lume foi a segunda obra que li do autor uruguaio Mario Benedetti. Assim como em A trégua (meu livro favorito de 2017) um peculiar conceito da felicidade me chamou atenção: a felicidade podia ser aquela tarde em Portezuelo, com Rosário novinha e alegre, porém não me iludo pensando a ideia de que a felicidade está em pequenos momentos que ocorrem no cotidiano durante a vida, mas que ao se iludir que a felicidade seja algo maior, o indivíduo que é feliz não se percebe como tal. Neste livro, Ramón Bundiño, aos quarenta e poucos anos, começa a questionar a sua vida e as decisões que tomou ao longo, questiona o amor e, sobretudo, a relação com o pai, que é um homem considerado de grande estima para o país, mas que na realidade representa uma grande ameaça a democracia uruguaia e acaba por ser a representação do poder opressor e corrompedor das elites. Percebe-se sem esperanças e corrompido no seu íntimo pela influência destrutiva do pai. Desta conclusão, Ramón coloca em curso um plano para recuperar sua identidade perdida e salvar o país da ameaça que é o seu próprio pai. Escrito em 1965 e censurado durante as ditaduras uruguaia, espanhola e argentina, Obrigada pelo lume é um livro de cunho político que parece atual ao descrever de forma metafórica as estratégias para acessão do autoritarismo, do fascismo e da extrema direita, incluindo todas as táticas que vemos nos noticiários de hoje as fakenews, a destruição de reputações, a falta de escrúpulos neoliberal, a manipulação das massas e o afastamento das elites da realidade vivida pela maior parte da população e afins. Enquanto não fabricarmos o nosso próprio rastilho e a nossa própria pólvora, enquanto não adquirimos uma consciência visceral da necessidade da nossa própria explosão, do nosso próprio fogo, nada será fundo o suficiente, verdadeiro, legítimo, tudo será uma simples casca, como agora é casquinha, só uma casquinha, a nossa tão apregoada democracia. E se nossos próceres, incluindo teu avô, podem dizer impunemente que têm as mãos limpas, isso só se deve a que o nosso conceito de higiene política deixa muito a desejar. Mas, para além disso, Benedetti tem muita sensibilidade em sua escrita e em passagens como é uma pena. Hoje precisava de um céu cinzento. Se eu pudesse desanimar a paisagem. Mas não posso, ou fê-lo outro, para outra, mas também eu o fiz e é para ti. Fê-lo outro, porque eu não sei dizer as coisas que sinto, mas reconheço quando alguém é capaz de as dizer por mim e a ausência de Dolores é uma tristeza que corre em mim consegue fazermos afeitos aos sentimentos que tanto mexem com Ramón. Apesar de não querer ir correndo pegar outro livro do autor, posso dizer que Mario Benedetti consegue mexer bastante comigo e está na minha lista de autores favoritos.
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