Como a teoria da evolução de Charles Darwin se relaciona com o mundo contemporâneo e, mais especificamente, com o ambiente escolar? A alemã Judith Schalansky dá a resposta no livro O Pescoço da Girafa, que aborda as relações humanas e a luta pela sobrevivência em uma crítica feroz.
Somos guiados pela figura de Inge Lohmark, que leciona biologia para adolescentes no Colégio Charles Darwin, em uma cidadezinha pacata na que antes havia sido a Alemanha Oriental. No entanto, a professora precisa lidar com o fato de que a escola em que trabalha será fechada dentro de algum tempo; a adaptação – processo demorado e muitas vezes penoso – é necessária para que a vida siga seu curso. Extremamente racional e sistemática, seus pensamentos e atitudes sempre encontram razão de ser na biologia, na genética e na teoria da evolução das espécies – para ela, tudo na vida pode ser explicado por esses conceitos.
A ausência de emotividade – ou talvez o excesso, extremamente contido em seu íntimo – pode ser uma justificativa para sua visão de mundo. Note que eu disse pode, pois o interior da protagonista segue indecifrável em sua totalidade; ainda assim, a falta de inteligência emocional e de traquejo nas relações revela muito sobre a professora Lohmark.
Dentro da sala de aula, Inge Lohmark faz questão de se manter a uma distância segura dos alunos – sem amizades e nem mesmo informalidades no tratamento. Até a maneira como ela se refere a eles, incluindo suas características físicas, não é de todo gentil e denota a suposta posição de cada um na cadeia hostil e competitiva da vida. “Diligente como uma abelha”, “imperceptível como erva daninha” e “animal conivente e resignado” são alguns dos termos usados pela professora ao definir esses estudantes.
Não apenas a sala de aula é um recorte da sociedade selvagem e competitiva, mas a escola como um todo. Também a relação entre os professores traz agressividade, cinismo e o risco constante de se ver abocanhado de uma hora para outra.
A frieza – e até crueldade – com que lida com seus alunos; o distanciamento do marido, mais ligado à criação de avestruzes do que à vida no lar; a ausência da filha, que deixou o país e construiu uma família nos Estados Unidos; todos esses aspectos reforçam a solidão e a rigidez da protagonista. Na meia idade, Inge Lohmark tem consciência do envelhecimento e também aplica sua visão extremamente baseada na biologia para encarar essa etapa da vida. A procriação não mais sendo uma função em sua vida e já realizada a criação da prole, Lohmark também usa a biologia para justificar a situação com o marido e com a filha.
Não se deixe enganar pelas frases curtas e ilustrações criativas – e biológicas – que intercalam a narrativa, pois não se trata de uma leitura exatamente fácil. Contudo, traz genialidade e uma crítica bastante afinada ao pensamento darwiniano e capitalista de que apenas os considerados mais fortes – e mais espertos, mais inteligentes, mais dispostos – têm alguma chance no mundo. Confesso, ainda, que a falta de tato e a dureza da protagonista divertem.
Bem o tipo de livro que eu super imaginaria adaptado para uma produção alternativa (e daria um filmaço!), O Pescoço da Girafa é simplesmente a vida nua e crua. Talvez um pouco crua demais, mas quem disse que o mundo, em constante mudança, não é assim? A nós, seres humanos, só nos resta saber nos adaptar e engolir, em vez de sermos engolidos.
LEIA PORQUE...
Provavelmente será diferente de tudo que você está habituado a ler. Ah, ter o mínimo de interesse por biologia, genética e afins é superválido para se envolver inteiramente com a leitura.
DA EXPERIÊNCIA...
Gostei da trama, gostei da protagonista, gostei do final aberto. Num mundo ideal, seria legal saber mais da parte psicológica de Inge Lohmark; por outro lado, o fato de ser hermética a torna ainda mais interessante.
FEZ PENSAR...
Outros livros que também trazem conceitos de biologia e genética em suas tramas, por exemplo A Síndrome E e, especialmente, Gataca, ambos policiais do francês Franck Thilliez.