Algumas vezes, atravessamos períodos de profundo desencanto, infelicidade e tristeza por medo de mudar. Recomeçar não é tarefa fácil. Quase sempre herdamos uma ou outra cicatriz, duas ou mais mágoas, seis ou mais lágrimas. O presente e o futuro dependem da nossa posição diante dos acontecimentos, levando-nos a carregar múltiplos positivos ou dividendos negativos A personagem Eva escolheu fazer esse cálculo no próprio caminho, sem muito tempo para planilhas ou planejamentos.
Eva é a protagonista de "O livro de Eva", romance da canadense Constance Beresford-Howe (original Book of Eve, tradução de Teresa Figueira e Timothy Yuan, editora Leganto, 2003, págs. 224). Com um currículo acadêmico brilhante (mestra pela McGill University e doutora pela Brown University), Constance publicou "O livro de Eva" em 1973, abrindo espaço para questionar os limites de instituições consagradas, como a família, tradição e religião. A narrativa em primeira pessoa traz a voz de Eva, uma mulher de meia-idade que, cansada de viver uma angústia mortal e silenciosa, decide abandonar todo o seu universo. Saindo de casa com uma mala frouxa, Eva deixa para trás um marido rabugento e doente, um filho cheio de problemas domésticos e uma casa "quente e segura" em um bairro burguês de Montreal.
Eva não tem para onde ir e perambula de táxi pela cidade até chegar a uma parte decadente e esquecida. Ali, ela parte em busca de um lugar barato para alugar e acaba parando em um porão. A partir dessa decisão, o leitor acompanha as digressões de Eva, onde reinam dúvidas, medos e tristezas. A "fugitiva" só tem certeza de uma coisa: não quer voltar para um casamento que só trouxe amargura e distância, e para um marido que provoca repulsa.
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