Andavia -

    Tavares Noel

    Bagaço
    2009
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-13: 9788537305799
    Português Brasileiro

    O poeta e compositor Noel Tavares publicou, em 2009, seu segundo livro de poesia Andávia, em edição particular, com incentivo público. Os seus poemas falam preferencialmente de coisas cotidianas, terrenas, abrindo espaço também para o sentimento lírico, a revolta ante as injustiças sociais e a convivência familiar e fraterna. Contudo, no poema aqui escolhido, “Ode à cidade do Recife”, Tavares estabelece o seu campo de atuação urbano, ao cruzar as fronteiras marginais da cidade, ao adentrar as esquinas, ruelas, mercados e bares onde se fomentam as vivências precárias e diferenciadas dos esquecidos, dos desocupados e sem função social definida na grande máquina movida pelo sistema político-financeiro da cidade e do país. Faz referência a poetas pernambucanos como Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho, parodiando-os. Pena Filho tem um longo poema sobre o Recife, que se situa historicamente a partir da criação da cidade, passando pela expulsão dos holandeses, até chegar ao nosso tempo, o Guia prático, onde costumes e hábitos são dissecados nos bairros centrais e nos subúrbios. É um canto que se rebela também com as vivências pequeno-burguesas da cidade, com a indiferença mostrada na relação com seus filhos, expulsando alguns deles para outras paragens. Tal como no poema de Noel Tavares, que aqui se transcreve: "Hoje, não cantarei o Recife de Manuel Bandeira, o Recife da lira e das bandeiras liberais, o Recife do chicote-queimado na rua da União, do coelho; sai-não-sai, sai-não-sai. O coelho sai? Não sai! Hoje, cantarei o Recife das mulheres da vida e desses homens marginais. O Recife dos loucos que estendem as mãos e riem de si mesmos como se fossem seres tão normais. O Recife dos heróis, sem glória e sem nome, cuja lista daria tranquilamente para encher as estantes da Academia Real de Londres. Hoje cantarei o Recife dos mangues, das palafitas, das crianças exangues, que teimam em existir. O Recife das crianças que andam sobre a lama em busca de um siri. Hoje, cantarei o Recife do: é melhor partir. Mamãe, eu acho que vou para o Rio de Janeiro, acho que lá não tem um rio que fede igual a esse aqui. Mas o rio Capibaribe não escuta, porque está preocupado em invadir a várzea para desovar a miséria. Recife é coisa séria! Às vezes, esquisito; ás vezes, esquistossomose. E enquanto um delira, o outro morre sem saber do que, por que e para que. E lá no bar Savoy, tantos de porre! Lá no bar Savoy, onde o poeta Carlos Pena Filho nunca disse: Recife, eu tenho pena de você. Hoje cantarei o Recife das pontes, mas não da família Pontes, nem Vieira, nem Freire e nem Bandeira. Hoje cantarei o Recife das pontes, entre a bastança do ter e do não ter. O Recife dos mendigos, desses artistas de circo Que saltam do trapézio pra morrer. Tampouco cantarei o Recife de terno, do cinema moderno, pois o filme real desta cidade não passa mais ali. Cantarei o Recife das igrejas, da erva e da cerveja, do porre e do xixi. – E eu não quero ir pra Pasárgada. Eu quero é ficar aqui! (Luiz Carlos Monteiro) http://omundocircundante.blogspot.com.br/2010/03/notas-cotidianas-e-literarias-xviii.html

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