Composta por John Kander e Fred Ebb, New York, New York foi tema do filme homônimo dirigido por Martin Scorsese em 1977. Dois anos mais tarde, Frank Sinatra a regravou, tornando a canção sua marca registrada. A letra meio que resume o que muitos nova-iorquinos sentem a respeito da cidade: “se você é capaz de conseguir o que quer que seja aqui, você é capaz de conseguir em qualquer lugar.” É a vida no modo Hard, meu amigo; muito diferente do que se vê nos principais cartões postais de lá.
Quase metade da população de Nova York vive à margem da pobreza. Nas últimas duas décadas, a concentração de riquezas se inclinou notavelmente na direção dos mais ricos, que correspondem a um por cento dos habitantes. E, com os ricos ficando mais ricos e os pobres ficando mais pobres, a classe média está, aos poucos, desaparecendo. Tal desigualdade é algo que John Freeman, ex-editor da Granta e organizador deste Histórias de Duas Cidades, viu de perto: seu irmão, Tim, teve seus dias sem teto em Nova York, forçado a pular de abrigo em abrigo até conseguir se reestruturar financeira e emocionalmente para desistir do sonho de viver na cidade.
Em Histórias de Duas Cidades, um elenco de 27 autores do mais alto gabarito expõe a Nova York que só quem já viveu ou vive lá conhece: a concorrência intensa e o individualismo que disso resulta; o sucesso que nem sempre é recompensador ou gratificante; o custo de vida como fator segregador; a habitação como preocupação constante; a frustrante e aterradora noção de que a esperança ainda é a última que morre, mas morre.
O que há em comum nesses textos — que abrangem diversos gêneros literários —, além da paisagem nova-iorquina, são os sintomas da vida urbana moderna, seus personagens e situações. No conto de Taiye Selasi, o destino une um russo, sua filha, um taxista indiano e uma garota de programa. Já Edmund White recorre à história real do libretista Lorenzo Da Ponte para lembrar o quanto sempre foi difícil imigrar para os Estados Unidos e se estabelecer no país. Vemos situações das mais diversas, do deslumbre de um Michael Salu recém-chegado de Londres com a cultura hip-hop de NY à infância proletária de Junot Díaz, autor da Record, que reouve seus livros de RPG após invadir a casa do ladrão.
Já na reta final do livro, Teju Cole apresenta manchetes de 1912 que comprovam que “a cidade que nunca dorme” sempre foi o lar de desajustados, mas também de pessoas criativas e cujas obra e influência perduram através dos tempos; gente que, muito antes de Sinatra soltar a voz, sacou a mensagem: “só depende de você.”