Livro lido 1°/Jun//30°/2018
Título: Entre nós - Um escritor e seus colegas falam de trabalho
Título original: Shop talk - A writer and his colleagues and their work
Autor: Philip Roth (EUA)
Tradução: Paulo Henriques Britto
Editora: @companhiadasletras
Ano de lançamento: 2001
Ano desta edição: 2008
Páginas: 176
Classificação: ????????
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Roth -- Deus o tenha! -- com sua exuberância estilística, sua lubricidade refinada, sua habilidade rara de ser profundo sem ser tedioso, é o meu escritor predileto. Sua morte ainda recente é um baque para os amantes de sua prosa instigante, envolvente, ácida e por isso magistral. Livros como "O complexo de Portnoy", "Pastoral Americana" e "O teatro de Sabbath" figuram entre suas obras mais contundentes e bem construídas. Dada a miopia institucional da bancada do Nobel de Literatura, é grande a indignação de o grande romancista jamais ter logrado o prêmio.
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O Roth romancista também era bom em escrever outras coisas. O livro que acabo de ler, "Entre nós", é uma perfeita lição para quem faz entrevistas. Admirável o preparo dele (sabe tudo sobre a obra dos entrevistados), a agudeza das perguntas, a maneira como aproveita as respostas para seguir adiante, a forma como demonstra sua admiração sem jamais bajular. (Penso cá comigo que escolas de jornalismo deveriam exigir que seus alunos lessem "Entre nós" para aprender a arte da entrevista).
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O livro gira em torno de conversas com amigos escritores, e Roth selecionou um super time, integrantes mais que merecidos na série A da literatura. Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, Aharon Appelfeld, Ivan Kima, Isaac Bashevis Singer, Edna O'brien e Milan Kundera (todos escritores do Leste Europeu e muitos deles fugitivos dos regimes de seus países). Uma lista memorável de grandes escritores, que se utilizaram de suas tragédias pessoais para compor livros que todos deveríamos ler. O livro ainda traz uma parte da correspondência de Roth com Mary McCarthy (Roth tenta mitigar a aparente indignação da leitora sobre os símbolos e ícones religiosos), os desenhos de Guston para "O seio", o romance kafkaesco de Roth, os retratos da obra de Bernard Malamud (autor que pretendo ler em breve) e as impressões do próprio Roth sobre suas leituras das obras de Saul Bellow. As passagens destacadas abaixo mostram um pouco do primor que é o livro:
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"(...) os escritores, tal como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que sabem ouvir e os que não sabem" - Conversa com Primo Levi (Posição no Kindle 43/3%).
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"Por favor, me dê o direito de ser incoerente: no campo de concentração nosso estado mental era instável, oscilando a cada hora entre a esperança e o desespero" - Conversa com Primo Levi (Posição no Kindle 126/5%).
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"Até hoje existe a crença generalizada de que os judeus são criaturas ágeis, espertas e sofisticadas, cheias de sabedoria mundana. Mas não é fascinante ver como foi fácil enganar os judeus? Com truques quase infantis eles foram reunidos em guetos, obrigados a passar fome por meses, estimulados por falsas esperanças e por fim jogados em trens que os levariam à morte" - Conversa com Aharon Appelfeld (Posição no Kindle 368/16%).
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"Todo aquele que passou por um campo de concentração na infância - que já foi totalmente dependente de um poder externo que a qualquer momento pode entrar e espancá-lo, matá-lo, a ele e a todos que o cercam - provavelmente vive o resto da vida de um modo ao menos um pouco diferente das pessoas que foram poupadas desse tipo de formação" - Conversa com Ivan Klima (Posição no Kindle 965/41%).
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"Os escritores não costumam receber um jovem vindo do interior e dizer imediatamente: 'você é nosso irmão, nosso mestre' - eles não costumam agir assim. O mais provável é que tenham dito: ''mais um chato com um original debaixo do braço'" - Conversa com Isaac Bashevis Singer (Posição no Kindle 1223/52%).
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"Quando uma grande potência quer privar um país pequeno de sua consciência nacional, ela utiliza o método do esquecimento organizado. E uma nação que perde a consciência de seu passado acaba por perder a identidade" - Conversa com Milan Kundera (Posição no Kindle 1387/59%).
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"É o preço que se paga por ser escritor. A gente vive atormentada pelo passado - dores, sensações, rejeições, e por aí vai. Eu realmente acredito que esse apego ao passado é um desejo insistente, ainda que fadado ao fracasso, de reinventá-lo de modo a modificá-lo" - Conversa com Edna O'brien (Posição no Kindle 1472/62%).
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"O Natal - ou seja, a idéia da Encarnação - não é apenas ódio aos judeus. Sem dúvida, já me ocorreu que todas essas canções de Natal devem parecer ofensivas àqueles que não compartilham da bem-aventurança por esse acontecimento maravilhoso" - Correspondência com Mary McCarthy (Posição no Kindle 1630/69%).