Enganei-me redondamente ao comprar o livro por causa do título. Pensei que “Maria de cada porto”, de Moacir C. Lopes, seria uma história passada em bordeis, retratando a vida de prostitutas e suas misérias de todos os dias. Note-se que a primeira edição da obra é de 1959.
Eis o resumo, como sempre faço em minhas resenhas: o narrador, Delmiro, um marinheiro (o autor foi marinheiro na vida real e foi combatente na Segunda Guerra), sofre o naufrágio do “Bahia” (que aconteceu realmente – pelo que pesquisei, mais de 300 marinheiros morreram nesse desastre) e se vê em uma das balsas que aguardam resgate. Enquanto tenta sobreviver e vê os companheiros morrendo a cada dia de fome, de sede, de insolação e por causa dos ferimentos, Delmiro rememora o seu passado e seus amores, assim como conta como é a vida na Marinha, passando por prazeres em bordeis, passeios nas zonas baixas de várias cidades brasileiras, relatos de casos amorosos (alguns chocantes para o pensamento atual), bebedeiras, atos de violência e, talvez o que seja mais importante, um importante relato de como foi a vida nas cidades que serviram de bases americanas durante a Segunda Guerra Mundial – período esse que raramente é estudado ou retratado em algum livro científico ou obra literária.
Usando técnicas de composição como flashbacks, alternância entre focos narrativos, análise psicológica e subtramas, Moacir Lopes prende a atenção do leitor, mas sem cair jamais na vulgaridade ou no apelo fácil para as lágrimas e muito menos em uma narrativa simplória, superficial, fútil. E, perdoem-me a sinceridade, é mais um exemplo de como a literatura brasileira de grande valor se torna tão pouco valorizada em meio a tantos lançamentos simplórios, superficiais, fúteis...