Mundafora em 198 livros #36: República do Congo
Mais uma viagem através dos livros à Africa, agora o país sorteado é a República do Congo e o livro viajado é Memórias de porco-espinho, de Alain Mabanckou. Aqui um porco-espinho narra sua própria história após a morte do homem ao qual estava espiritualmente ligado como “duplo”: uma tradição segundo a qual cada pessoa possui um animal que pode agir em seu nome, inclusive para matar. Confessando-se a um baobá, ele relembra os assassinatos que cometeu a mando do seu mestre, expõe as regras invisíveis da feitiçaria na aldeia e questiona, com ironia e lucidez, quem realmente carrega a culpa: quem ordena, quem executa ou a crença que sustenta tudo.
Quando falamos em Congo, é preciso antes separar os nomes: você está viajando pela República do Congo, cuja capital é Brazzaville. Geograficamente, é um país da África Central banhado pelo Atlântico, coberto em grande parte pela floresta equatorial da Bacia do Congo. O território mistura selva densa, savanas e planícies costeiras. O Rio Congo marca parte de sua fronteira e, do outro lado dele, está Kinshasa, capital da vizinha República Democrática do Congo. É uma daquelas ironias geográficas que parecem ficção: duas capitais frente a frente, separadas apenas por água.
A República do Congo tem uma história que começa muito antes das fronteiras desenhadas nos mapas europeus. Antes da chegada dos colonizadores, a região era ocupada por povos bantos organizados em reinos e chefias, com redes comerciais ativas e estruturas políticas próprias. Um dos mais importantes foi o Reino do Kongo, que, a partir do século XV, estabeleceu contato com os portugueses. Esse encontro trouxe comércio, inclusive o tráfico de pessoas escravizadas, e também profundas transformações religiosas e sociais.
No fim do século XIX, durante a chamada “Partilha da África”, a região passou ao controle francês. O explorador Pierre Savorgnan de Brazza firmou tratados que abriram caminho para o domínio colonial, e a capital Brazzaville leva seu nome. O Congo tornou-se parte da África Equatorial Francesa. O sistema colonial foi baseado na exploração de recursos e trabalho forçado, deixando marcas econômicas e sociais profundas.
A independência veio em 1960, e o país atravessou períodos de partido único, instabilidade e guerra civil nos anos 1990. Politicamente, carrega as marcas dessas tensões; socialmente, mantém uma vitalidade cultural que resiste.
A população gira em torno de cinco a seis milhões de habitantes, composta majoritariamente por grupos bantos. O francês é a língua oficial, herança da colonização francesa, mas o lingala e o kikongo têm presença forte no cotidiano.
Na literatura, a República do Congo tem nomes importantes como Sony Labou Tansi, conhecido pela escrita crítica e satírica, que denunciava autoritarismos com imaginação feroz. É nesse terreno que se insere Alain Mabanckou. Nascido em Pointe-Noire e radicado fora do país, ele escreve em francês, mas carrega a cadência da oralidade africana na estrutura de seus romances. Em Memórias de porco-espinho, essa herança aparece no narrador que fala como quem conta histórias ao redor do fogo.
Em Memórias de porco-espinho, de Alain Mabanckou, a oralidade não é apenas um recurso estético; é a espinha dorsal da narrativa. Quando começamos a ler, entramos em um monólogo que já estava em andamento. O porco-espinho fala como quem conta uma história ao pé de uma árvore, e não por acaso ele se confessa a um baobá, uma árvore africana de tronco imenso e aparência quase mítica, comum em várias regiões do continente. Em muitas culturas africanas, ele é símbolo de ancestralidade, memória e sabedoria. Por isso, em Memórias de porco-espinho, quando o animal se confessa a um baobá, não está falando ao vazio. Está falando à tradição; confessar-se a uma árvore assim é símbólico.
O texto avança quase sem pausas, em fluxo contínuo, como funciona a memória. Há repetições, digressões, ironias que imitam a cadência da voz humana, com sua insistência e suas voltas. Ao longo dessa confissão, o narrador revela as engrenagens invisíveis que sustentam sua comunidade: rivalidades entre feiticeiros, códigos de honra que regulam a violência, disputas por prestígio espiritual. O mal, aqui, tem método e é justamente essa organização quase burocrática da feitiçaria que inquieta. O porco-espinho não age por impulso, ele cumpre ordens. A tradição estrutura o crime e o torna aceitável dentro de certos limites.
Portanto, Alain Mabanckou parte de mitos e lendas do Congo, mas não os registra como folclore estático: ele recria, ironiza e atualiza essas tradições, deslocando-as para um contexto contemporâneo. O narrador não é inocente nem moralizante como nas fábulas; é irônico, ambíguo e crítico, observando os humanos com perspicácia. Ao mesmo tempo, o romance mergulha no léxico do imaginário africano, incorporando feitiçaria, espíritos que revelam assassinos, bebês fantasmas vingadores, divindades, dialetos, plantas, bichos e territórios, criando um universo que é ao mesmo tempo familiar e surpreendente.
Sob a aparência de fábula, o romance examina violência, superstição, poder e cumplicidade com precisão. A voz animal permite distância, mas também revela o que talvez fosse difícil dizer de outro modo. No fundo, o que está em jogo não é apenas a história de um porco-espinho assassino. É a maneira como comunidades, e indivíduos, se escondem atrás de tradições para justificar aquilo que preferem não questionar. A ironia do narrador é fina, mas o diagnóstico é sério.
O romance não é um retrato direto da República do Congo, mas ele carrega as tensões históricas do país nas entrelinhas. A ideia de uma violência regulamentada, sustentada por códigos e legitimada por estruturas invisíveis, conversa com uma história marcada por colonização, autoritarismo e guerras civis. No Congo real, também houve sistemas que organizaram a vida coletiva, alguns ancestrais, outros impostos de fora, e que moldaram comportamentos por gerações. O porco-espinho que cumpre ordens pode ser lido como metáfora de indivíduos capturados por engrenagens maiores do que eles. E é justamente dessa engrenagem, histórica e simbólica, que nasce o desconforto moral que o romance coloca diante do leitor.
O livro também estabelece diálogos literários amplos. Surge o personagem Amedê, que lê romances estrangeiros aos nativos, e o porco-espinho faz referência a obras como O Velho e o Mar, Macondo de Gabriel García Márquez, Aladim, Horacio Quiroga e outros. Há ecos literários que lembram os duplos de Borges, a relação entre homens e orixás em Jorge Amado e a lagartixa narradora de José Eduardo Agualusa, estabelecendo uma rede de referências que amplia a fábula africana para o contexto da literatura mundial.
Para além desse diálogo com outras tradições literárias, o que realmente sustenta o romance é o desconforto ético que ele provoca. É nesse ponto que o romance deixa de ser apenas engenhoso e se torna incômodo. A violência narrada não é explosiva; é regulamentada. O porco-espinho mata porque foi designado para isso. O homem ordena porque a tradição lhe concede esse poder. E a comunidade aceita porque sempre foi assim. A pergunta, então, não é só quem matou, mas quem sustenta a engrenagem. O executor é culpado? O mandante? Ou a crença que torna tudo legítimo? Mabanckou evita o conforto das respostas simples. O narrador não se pinta como vítima inocente nem como vilão arrependido. Ele oscila entre orgulho profissional, cansaço moral e um desconforto que cresce silencioso, como se a consciência fosse um atraso. E talvez seja essa a crítica mais dura: a tradição pode servir tanto como abrigo quanto como álibi.
Quando o mestre morre, a estrutura que organizava o mundo do porco-espinho se rompe. Sem o duplo humano, ele perde sua função, sua utilidade, sua identidade. A morte do outro inaugura uma espécie de vazio ontológico. Quem é ele agora? Apenas um animal? Um ex-instrumento de assassinato? Um ser capaz de escolha? A fissura aberta pela morte permite algo que a obediência não permitia: pensar. E pela primeira vez, o porco-espinho considera a possibilidade de autonomia, de romper o ciclo que o definia. O destino, que parecia selado por rituais e crenças, revela-se talvez menos rígido do que parecia. A liberdade surge, então, como dúvida. E, nesse romance, a dúvida vale mais do que qualquer moral pronta.
Memórias de porco-espinho, de Alain Mabanckou; tradução Paula Souza Dias Nogueira. Rio de Janeiro: Malê, 2017. 130p. Leitura de Fevereiro 2026.