Zen (Mitos * Deuses * Mistérios) - O Budismo nas terras do Japão

    Anne Bancroft

    Del Prado
    1981
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9780500810187
    Português Brasileiro

    O Budismo nas terras do Japão: Mestres; Ensino; Meditação; O zen em ação; Poesia e caligrafia; Humor; Artes marciais. Livro ilustrado da coleção "Mitos, Deuses, Mistérios".

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    Caio Lobo29/06/2023Resenhou um livro
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    Três homens viram uma tartaruga, o que a torna tartaruga?

    O Zen está quando não está e quando não está, está. Saia da razão e da lógica, isso é o que ensina o Zen, pois o Satori (iluminação súbita) que pode ser explicado não é o verdadeiro Satori. Como já dizia Wittgenstein: “o que não se pode falar, deve-se calar.” Mas o Zen não se cala, ele confunde, assim como dizia Chacrinha: “Eu vim para confundir, não para explicar”. Talvez a frase “não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” de Cristo seria mais condizente, pois o Zen traz a espada, e além de trazer a espada ensina a usá-la. Não é à toa que o Zen se torna base do Bushido, o código de ética samurai, e assim adentra em todas as artes marciais japonesas. Engraçado que Zen se tornou no Ocidente sinônimo de paz e tranquilidade, mas no Oriente, pelo contrário, Zen é austeridade. A imagem do Zen chegou muito romantizada aqui para nós, no Brasil é pior, pois tem ainda a Monja Coen, que nada tem de Zen e de Monja só a roupa, que transforma Zen numa filosofia apenas, ou pios, numa autoajuda, que só atrapalha. Sobre o livro, tenho a dizer que amo essa coleção, um clássico do esoterismo dos anos 90 e acho que quem trouxe essa ideia pro Brasil não imaginava que haveria obras profundas como essa na coleção. Certamente muita gente adquiriu o livro se decepcionou por não ter entendido nada ou por não ter visto aquilo que queria ver, o Zen romantizado. Para mim a leitura foi uma delícia, um verdadeiro néctar, e até sonhar com o Japão o livro me fez sonhar no período que o lia. Mesmo quando não entendia eu não entendia entendendo, pois se eu estivesse entendendo eu não entenderia. O livro tem também belas imagens de jardins Zen, as sublimes artes paisagísticas orientais e diversas representações de Budas, desde sérios até cômicos. O Zen sabe ser bem zombeteiro, principalmente quando diz que quando você encontrar o Buda, mate-o; ou numa noite fria de inverno um monge quis manter a imagem Buda aquecida, então queima a imagem de Buda. O Zen faz uso de três tipos de treinamento para levar seus seguidores à experiência do Satori e amadurecer essa experiência: meditação ou zazen, o estudo dos koans e a vida diária. O Zazen é a meditação onde ficamos voltados para uma parede branca, em posição de lótus e com olhos abertos (isso mesmo, olhos abertos). Então se observa o fluxo, o que é interessante, pois qual o fluxo de uma parede parada, branca sem nada? Se sentir ono não há problema, um monge segurando um pau cuida de vocês e se verem dormindo ou caindo na postura logo dá uma paulada nas suas costas. Esse é o método da escola Soto. Já o Koan é frase ou história aparentemente sem sentido, que não tem sentido para a razão, mas tem razão de ser para a não-razão. Alguns exemplos de Koan: -“KATSU!” (Burro. Imbecil); - Miyo, miyo! (olhe, olhe!); -Seja incapaz de acreditar; - Os salgueiros são verdes, as flores são vermelhas; - Mesmo uma coisa boa não é tão boa quanto nada; - O zumbido do dragão na árvore morta, O globo ocular no crânio seco; - A flauta sem furos é a mais difícil de soprar; -A lua fora da janela É geralmente a mesma lua, Assim que houver flores de ameixa Se torna lua diferente; - Tomo a cegueira como visão, a surdez como audição; Considero o perigo como segurança e a prosperidade como infortúnio; - MORTE Mentira cuja percepção penetra aqui É um homem verdadeiramente grande; - Lave um torrão de terra na lama. Perceba que pelo nonsense virtuoso das frases da escola Rinzai a realidade quer se mostrar a nós, mas a mente lógica não deixa. Enganemos a mente. Mas exotericamente as frases já mostram que tudo é transitório, nada é permanente. Se nada é permanente, então é o nada que devemos buscar, e é difícil buscar o nada, pois não está em lugar nenhum, mas ainda bem que é fácil alcançar o nada, pois tudo é vazio, nada é real e verdadeiro, tudo conceito. Pode-se dizer que o Zen criou o pós-estruturalismo muito antes do Ocidente, e ainda um pós-estruturalismo que não é KATSU!” (Burro. Imbecil), que nem o nosso. Mas como entender quando a palavras já não falam mais. Então o silêncio diz muito e quando a razão se cala a intuição intui. O Zen também criou a arte expressionista muito antes de nó ocidentais, pois a arte zen expressada através das imagens a nanquim ou através das vigorosas pinceladas com o pichel do Shodo transmitem expressão do artistas/monges no momento que fizeram. Os traços ficam fortes ou suaves durante o trajeto do pincel no papel e sentimos essa pincelada, “eternizada” como movimento estático. E o melhor é que fazem caricaturas deles mesmos, zombam de si mesmos, de Deus e do mundo, até do Buda mesmo. Mas quando sérios são um tigre, e o mestre tigre tem que ser amansado até se tornar um gatinho, fazendo de gato, sapato. A decoração Zen é sóbria, o jardim não tem plantas, só pedras, pois nessa aridez monótona se percebe diversidade sem fim de formas e cores. O teatro Nô foi influenciado pelo Zen, onde no silêncio de repente se dá um berro espontâneo, e o susto é tão grande que alcança o Satori. Mas o que mais se destaca é o mais simples, como o arranjo sutil e profundo de flores no Ikebana, e a lenta e simples grandiosa cerimônia do chá. Pode-se perceber que o Zen também inventou o minimalismo ante de nós, mas um minimalismo profundo e não preguiçoso como o nosso. Tudo na simplicidade complexa do cotidiano é momento do despertar no Zen, Miyo, miyo! (olhe, olhe!), não deixe passar a oportunidade no fluxo, até varrer é meditação. O mundo de vida é o mundo de Dharma, onde cada coisa se interpenetra e se harmoniza perfeitamente com todas as outras coisas sem qualquer impedimento, o reino da total ausência de esforço. Mas bem, Zen não é japonês, apesar que ali alcançou máxima expressão, sofisticação e sutileza. Veio da China, que por sua vez veio da Índia através de Bodhidarma, o mestre que arrancou a pálpebras para não dormir em meditação, ficando com a cara gozada, e é muito bom rir dele. O budismo então se mistura com o taoísmo, e essa mistura gera o sabor mais diferente do Dharma. A palavra “Zen” vem do chinês “Chan”, nome da escola na China, e “Chan” vem do sânscrito “Dhyana”, que significa “meditar”, “focar”. Essa palavra vem do Proto-indo-europeu “*dʰyeh₂-“, que significa “perceber”, “observar”. Essa palavra foi para o grego como σῆμα (síma), “marca”, “sinal” (o que indica o uso de uma marca ou sinal desenhado para concentração no Dhyana). σῆμα (síma) está em palavras como “semiótica” (observação dos sinais) e “semáforo” (sinal de luz). Então Dhyana foi uma palavra que deu a volta na Terra a partir da Índia, passando por China até Japão de um lado, e da Grécia para toda Europa até chegar aqui no Brasil. Podemos relacionar as palavras semáforo e Zen, já que ambas tem a mesma origem, então toda vez que estiver num Semáforo esteja Zen.

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