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    Guerra de gueixas -

    Kafu Nagai

    Estação Liberdade
    2016
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788574482675
    Português Brasileiro
    3.8
    182 avaliações
    Leram237Lendo8Querem525Relendo1Abandonos8Resenhas25
    Favoritos11Desejados525Avaliaram182

    Publicado originalmente entre 1916 e 1917 no jornal literário Bunmei, Guerra de gueixas foi uma obra bastante ousada para a época desde sua primeira edição em livro, ainda em 1917, até os anos 1960, só circulou a edição censurada, em que as passagens tidas como eróticas tiveram de ser removidas. Nada que hoje causasse maior furor, mas as pequenas historietas que compõem a trama central, notadamente os relacionamentos entre as gueixas e seus clientes, carregam de fato muito de uma promiscuidade na sociedade japonesa comum, mas sobre a qual não se falava ou se escrevia. Ambientada em Shinbashi, Tóquio, tido como o bairro da prostituição, a história tem como personagem central Komayo, uma gueixa que por muitos anos ficara afastada da vida de libertinagem ao se casar. Mas, tendo se tornado viúva ainda relativamente jovem, teve de voltar ao velho ofício em Shinbashi. Nesse recomeço como gueixa, Komayo passa a ter de disputar com algumas rivais a condição de ser vista como a melhor dançarina da área. Ao mesmo tempo, vê-se envolvida numa teia de relações amorosas, envolvendo um antigo cliente, um velho rico e um jovem onnagata ator de kabuki que encarna papéis femininos. A forma como o autor desenvolve uma série de personagens secundários, entre escritores, atores, criadas, cafetinas e outros tipos, além de descrever com muita propriedade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações entre os homens e as gueixas, pintam um painel fascinante da Tóquio boêmia do início do século XX, reconstituindo com grande vivacidade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações sociais de um tempo. Favores, traições e vinganças acabam por compor a descrição de uma época e um lugar, vista como um dos ideais estéticos do autor.

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    Ladyce West picture
    Ladyce West13/11/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Não posso me considerar conhecedora de literatura japonesa. Kawabata, Murakami, Tanizaki, Kawakami, Matsuoka, Kirino, Inoue foram os únicos escritores lidos. Uma dúzia de obras, não me faz conhecedora. Particularmente quando se trata de uma de civilização milenar, repleta de biombos culturais, sussurros de entonação e gestos estudados. Mas já li o suficiente para sentir que em "Guerra de gueixas" há uma diferença. A trama é contada com ritmo avançado, clareza de expressão, narrativa direta e descrições cândidas. Nagai Kafū economizou nas metáforas e tradicionais insinuações orientais. O resultado foi uma bela obra sobre um pequeno evento colocado num contexto franco e arrojado. Depois de enviuvar Komayo, que havia sido gueixa, retorna à vida que tivera antes do casamento e participa da disputa por clientes para garantir boa sobrevivência no futuro. Nessa procura envolve-se com três homens e se vê no centro de uma competição com outras gueixas que, como ela, pensam em assegurar uma vida estável, nos dias em que a idade se mostrar como obstáculo. Procuram um único patrocinador. Komayo se depara, nessa competição, com uma escolha: proteção financeira sem amor ou uma paixão. Sozinha, suas escolhas determinarão o futuro. Não pode errar. Suas conquistas são objeto de ciúmes e inveja. Grande parte do que conheço sobre Shimbashi, o bairro das gueixas em Tóquio, veio através de obras de autores ocidentais, mais ou menos fascinados com o exotismo das gueixas, dos cerimoniais nas casas de chá, do teatro kabuki. Um grande livro que alargou o meu conhecimento sobre o assunto foi do escritor inglês Kazuo Ishiguro, "Um artista do Mundo Flutuante". Mas Ishiguro escreveu também com conhecimento de segunda mão, já que passou a vida desde de os cinco anos de idade na Inglaterra. Pois, foi na obra de Nagai Kafū que vi o retrato do mundo flutuante por um escritor japonês descrito com desembaraço semelhante ao encontrado em muitas xilogravuras Ukiyo, abertamente sexuais. Em Guerra de gueixas a vida diária de Shimbashi é retratada sem romantismo, numa ostensiva rebeldia à habitual discrição sobre o assunto na terra do sol nascente. Um dos pontos altos deste livro é o retratar das mudanças de comportamento na sociedade japonesa com a influência ocidental. A obra, lançada em 1916, é enraizada justamente nesse período de grande pujança econômica do país. Mas não faz qualquer menção aos grandes sacrifícios da população que caracterizaram a época entre o final do século XIX e a entrada do país na Segunda Guerra Mundial: as guerras contra a China e contra a Rússia. Isso só não empobrece o texto porque Nagai Kafū não se propôs a escrever um romance histórico, mas um obra de gênero. O que descobrimos são as pequenas maneiras em que a ocidentalização se dá na vida cotidiana da cidade. "Guerra de gueixas" é considerado um clássico da literatura japonesa moderna. Tem todo jeito de ser uma obra de transição, de um período em que a estética literária de Yasunari Kawabata se desloca para a de um Haruki Murakami. Ainda que Kawabata seja mais jovem, sua obra me parece mais ligada às tradições literárias nipônicas do que a de Nagai Kafū que o precedeu. Talvez isso seja só a visão de quem lê com os olhos do ocidente. Mas sou pretensiosa ao fazer essa afirmação, consciente de meu conhecimento superficial de uma rica tradição literária. A leitura de "Guerra de gueixas" é rápida, cheia de passagens memoráveis e de interessantes observações. É leve. Tem um gosto de século XIX. Mas vale muito a pena. Devo ressaltar a bela edição da Estação Liberdade que dá gosto à leitura. Recomendo.

    14 curtidas

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    3.8 / 182
    • 5 estrelas18%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas37%
    • 2 estrelas5%
    • 1 estrelas0%
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    永井 荷風

    Nascido em Tóquio em 1879, o autor recebeu o nome de Nagai Sokichi (永井 荷風, Nagai Kafū). Tornou-se célebre com seu nome literário, Kafu. Desde a adolescência interessou-se por literatura e cultura tradicionais japonesa e chinesa, além de apreciar autores franceses como Zola, Baudelaire e Maupassant. Aos dezenove anos já escrevia seus primeiros contos, que seriam publicados a partir de 1900. Em 1903 viaja a Nova Iorque, onde trabalha em um banco japonês. Esse período inspirou o livro Amerika Monogatari [Histórias Americanas], de 1908. Em 1906, por exigência do trabalho, muda-se para Lyon, na França, onde teve contato intenso com a literatura daquele país, interessando-se especialmente pelo simbolismo. Ao retornar ao Japão, em 1908, já é um homem de letras maduro e cosmopolita. O profundo interesse que demonstra pelo mundo das gueixas e prostitutas está sempre refletido em suas histórias. Autor de romances, contos e peças de teatro, manteve intensa produção até sua morte, em 1959.

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    永井 荷風