Quando se pensa em cultura, pensa-se em um processo que vem sendo trabalhado há muito tempo, algo que se recebe e que se transmite. Pensa-se também na cultura como um bem de consumo, um bem de circulação, alguma coisa que se pode obter, ser proprietário dela e que a soma de objetos culturais. Esta visão de cultura pode ser chamada de reificada, isto é, uma visão que considera a cultura como um conjunto de coisas. Alfredo Bosi
Cultura brasileira - Tradição Contradição
Alfredo Bosi e outros
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Ver maisPor Adauto Novaes
Em 1985 a Funarte, através do seu Núcleo de Estudos e Pesquisas/NEP, promoveu o curso sobre Tradição/Contradição, uma reflexão sobre momentos importantes da cultura brasileira, considerada sob dois aspectos: o da continuidade e o da ruptura dessa continuidade. Para orientar essa reflexão conferências e debates foram convidados alguns dos principais nomes da inteligência brasileira: Gerd Bornheim, Alfredo Bosi, José Américo Motta Pessanha, Roberto Schwarz, Roland Corbisier, Marilena Chaur, Silviano Santiago, José Miguel Wisnik, Hans-Joachim Koellreuter, Júlio Medaglia, Ferreira Gullar, lná Camargo Costa, lumna Simon, Paulo Sérgio Duarte, Davi Arrigucci, José Arthur Giannotti, Homero Sanchez e Celso Japiassu. Essas conferências, revistas pelos autores, foram publicadas pela editora Jorge Zahar. Gerd Bornheim, em O conceito de tradição, analisa os conceitos de tradição e ruptura desde os gregos, observando que já eles perceberam que conceitos opostos costumam atrair-se, que eles formam de algum modo uma unidade, ainda que conflituada; mas os opostos se pertencem, e como que nascem de uma mesma raiz. O filósofo acrescenta: Se se pensa na situação atual do problema, parece claro que se tornou impossível a abordagem do conceito de tradição independentemente desse seu corolário atual que é a ruptura; tradição e ruptura se espelham reciprocamente, e a dialética dos dois termos esclarece a quantas andamos nessa grande crise que é a história do nosso tempo. Alfredo Bosi, em Cultura como tradição, acentua a tradição enquanto memória: A memória, diz ele, é o centro vivo da tradição, é o pressuposto da cultura no sentido de trabalho, acumulado e refeito através da História. E ainda: Falar em cultura como tradição sem falar em memória é não tocar no nervo do assunto. José Américo Motta Pessanha, em Cultura como ruptura, ensina que, em nossos dias, vive-se filosoficamente sob o signo do pluralismo e da ruptura. Mas, diz ele, aceitar e assumir a multiplicidade não significa necessariamente rejeitar a razão. Significa, isto sim, dessacralizá-la, retirando-a da intemporalidade. Significa, por exemplo, concebê-la e exercitá-la não mais à luz da eternidade, porém enquanto razão histórica, humanizada, circunstancializada, razoável, persuasiva e não coagente (como em Perelman); ou enquanto existindo sbb a forma de racionalismos setoriais, abertos e retificáveis (como em Bachelard). Refletindo sobre a cultura brasileira, Roberto Schwarz, em Nacional por subtração, analisa o problema das ideias importadas, ou da cópia, esclarecendo como essa questão vem sendo apresentada de modo linear, e acentua a dimensão organizada e cumulativa do processo, a força da tradição, mesmo ruim, as relações de poder em jogo, internacionais inclusive. Conclui que a vida cultural tem dinamismos próprios, de que a eventual originalidade, bem como a falta dela, são elementos entre outros. A questão da cópia não é falsa, desde que tratada pragmaticamente, de um ponto de vista estético e político, e liberta a mitológica exigência da criação a partir do nada. Em Permanência do discurso da tradição no modernismo, Silviano Santiago afirma que essa tradição existe e pergunta: Qual é a razão para o retorno da tradição hoje? E principalmente por que estaremos interessados em investigar os traços da tradição no interior do Modernismo? A tentativa de Santiago é a de compreender o Modernismo dentro de especulações que levam em conta a tradição. Finalmente, em Regressão e tradição na arte nos anos 80, Paulo Sérgio Duarte, ao analisar algumas características do chamado pós-moderno, questiona a apologia da democratização e socialização do saber através de simplificação e de exagerado apelo a certas tradições, ou seja, a tradição recente que é a tradição moderna. E afirma: E é isso que eu estou chamando de tradição, e com esta nós temos que romper. Em busca de que outra tradição? Na medida em que não existe uma referência e uma tradição clara e nenhum pensador profundo pode procurar a tradição na sociedade fragmentada industrial, essa tradição seria regredir para o presente, ou seja, esquecer a história, esquecer o passado, os progressos que atingimos.
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