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    Todos os contos - Prefácio e organização de Benjamin Moser

    Clarice Lispector

    Rocco
    2016
    656 páginas
    21h 52m
    ISBN-13: 9788532530240
    Português Brasileiro
    4.6
    2106 avaliações
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    O argentino Ricardo Piglia – crítico e narrador que em termos gerais podemos definir como um “especialista da leitura”, que sempre tem em mente a ideia da tradição literária – disse numa entrevista que Clarice Lispector parece uma escritora de outro planeta, no sentido de que não se pode afirmar facilmente que sua literatura é brasileira. Acrescente-se: nem com a literatura de qualquer outro lugar. Clarice Lispector é justamente um mundo – ou o mundo. A edição de Todos os contos, organizada pelo pesquisador e biógrafo Benjamin Moser, reunindo pela primeira vez em um só volume todos os relatos da autora de Laços de família e Felicidade clandestina, investe o leitor na qualidade de explorador desse planeta que, pode-se ter uma certeza além da ciência, é demasiadamente humano. Habitado por bichos, homens e sobretudo mulheres, que se revelam, nas mãos de Clarice, maravilhosos em meio à alegria e ao horror da existência. Originalmente, a coletânea saiu nos Estados Unidos (The complete stories, New Directions, com premiada tradução de Katrina Dodson), e foi selecionada pelo jornal The New York Times como um dos 100 melhores livros de 2015. É importante pedra na pavimentação da carreira internacional de Clarice Lispector, cujo impulso nos últimos anos tem sido notável. Antes restrita aos meios universitários, a escritora radical, mas sempre apaixonante, alcança aos poucos um público cada vez maior. São 85 contos. Uma das razões para que tal reunião nunca tenha acontecido antes – nem no Brasil – é uma particular história de edição, que registrou variantes dos escritos da autora durante toda sua vida: ela tinha o hábito de reciclar obras antigas e publicá-las em novos formatos. Além disso, o organizador Benjamin Moser optou por montar uma ampla rede: “Clarice Lispector não respeitava os limites entre os gêneros. Muitos de seus textos foram apresentados como jornalismo, mas são claramente ficcionais, ao passo que muitos daqueles que foram publicados como ficção podem ser classificados de ensaios ou relatos memorialísticos.” A obra é uma viagem, desde o primeiro conto, publicado aos 19 anos, até a implosão intelectual e sexual da artista à medida que se aproximava da morte. E um retrato da autora, bela mulher de diplomata, alta e loura, longas pernas que se deixavam fotografar na Praia do Leme, mas também a filha de imigrantes pobres do Leste Europeu e mãe de classe média que, separada do marido, teve de se virar para ganhar a vida – trabalhou como jornalista de moda, beleza e comportamento, usando pseudônimo. Tudo no livro evoca seu “fascínio feminino” e sua tragicidade de fumante inveterada que quase se mata ao provocar um incêndio ao adormecer com o cigarro aceso. No prefácio, Benjamin Moser faz a ressalva elogiosa: “Esta literatura não é para todo mundo: até mesmo alguns brasileiros bastante cultos ficam perplexos com o fervoroso culto que ela inspira. Mas para aqueles que a entendem instintivamente, o amor pela pessoa de Clarice é tão imediato como inexplicável. A sua arte é uma arte que nos faz desejar conhecer a mulher; e ela é uma mulher que nos faz querer conhecer a sua arte. Este livro fornece uma visão de ambas.” Fica evidente nos relatos – alguns inesquecíveis para quem os leu pela primeira vez e sempre retorna a eles: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Uma galinha”, “Feliz aniversário”, “A menor mulher do mundo”, “O búfalo”, “A legião estrangeira” – o perfeito domínio da narrativa curta. Alguns críticos se julgaram incompetentes para analisar a autora, e outros, mais obtusos, duvidaram do que aquilo que liam fosse literatura. Mas alguém discorda que, para inventar, há de que se conhecer o básico? No conto tradicional, uma história secreta se revela no clímax ou mesmo no truque da reviravolta da última linha. Em Clarice, repare em seus finais: muitas vezes a alma da personagem, a qual foi se desnudando no processo da escrita, resume-se (ou implode-se) numa única frase. “Amor” é um conto típico – e genial – de Clarice Lispector. Entre tantos, é mais um em que o cenário é o Rio de Janeiro. Ana, casada, com filhos, tem um troço dentro do bonde, grita, deixa cair o embrulho de ovos, ao ver um cego. Mas não um cego como outros: aquele mascava chicletes parado perto do ponto. É o início de uma jornada interior de terror gótico. A personagem salta do bonde e entra pela alameda central do Jardim Botânico, entre as palmeiras: “A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” Que os leitores sejam bem vindos ao paraíso de Clarice. Texto de Alvaro Costa e Silva, jornalista.

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    kam !06/03/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Mergulho na escrita de clarice lispector: entre o abismo e o espelho!

    Clarice lispector é um verdadeiro abismo, daqueles que a gente cai sem perceber e, quando se dá conta, já está completamente imersa. sua escrita não é apenas bela, é visceral, cortante, profunda. ela não escreve histórias no sentido tradicional; ela nos entrega um espelho, nos obriga a olhar para dentro e encarar tudo aquilo que tentamos esconder. e o mais impressionante é que ela faz isso a partir de situações corriqueiras, momentos banais que, em suas mãos, se transformam em algo muito maior. clarice tem essa habilidade absurda de pegar o mundano e revelar nele um universo de significados, nos fazendo perceber que, no simples, há sempre um mistério, uma complexidade que muitas vezes ignoramos. e essa é a grandeza de sua escrita: ela fala sobre a humanidade de um jeito extravagante, quase brutal, sem rodeios, sem amenizar nada. suas palavras não são apenas palavras, são verdades que ecoam dentro da gente, que nos fazem pensar, sentir e, principalmente, lembrar. ler clarice lispector foi como rasgar a minha própria alma com palavras. tudo o que ela escreveu pareceu algo que eu sempre senti, mas nunca soube como expressar. a leitura dessa obra foi como encontrar um espelho, onde pude ver com clareza partes de mim que estavam obscurecidas pela dificuldade de lidar com as emoções mais profundas. a escrita dela foi uma verdadeira viagem pelas minhas próprias angústias, pelas dependências emocionais que moldaram minha vida, pelas escolhas que eu fazia em busca de aprovação onde não havia necessidade. clarice, com a precisão de uma artesã da palavra, conseguiu alcançar essas feridas e, de forma quase cruel, abri-las novamente. mas, dessa vez, ela me mostrou algo importante ao fazer isso: um caminho para a cura, ou, ao menos, para uma compreensão mais profunda de mim mesma. eu estava acostumada a viver com essas cicatrizes sem entender o significado, e clarice, sem rodeios, me fez entender que essas marcas eram parte de quem eu sou. ela não me deixou escapar da verdade que eu evitava, mas de uma forma tão genuína e profunda que me fez querer olhar para dentro com mais coragem, sem medo. por muito tempo, eu não aceitava quem sou. sempre tive a sensação de que existia algo em mim que não se encaixava, como se estivesse constantemente deslocada até dentro de mim mesma. tentava me moldar ao que achava que deveria ser, tentando preencher espaços que nem sequer eram meus. e, mesmo quando conseguia, nunca parecia suficiente. clarice, no entanto, me fez enxergar essas partes que eu sempre quis esconder. ao invés de ignorá-las ou tentar mudá-las, ela me fez reconhecê-las. não foi um processo fácil, nem confortável, mas foi necessário. sua escrita me mostrou que existir em toda a complexidade e contradição que sou não é um erro, é simplesmente o que é. eu não precisei me encaixar em nada para ser real. pela primeira vez, me vi através de uma lente que não era distorcida pela culpa ou pelo medo de não ser aquilo que esperavam de mim. e, mesmo que eu ainda lute com isso, sinto que algo mudou. mas, acima de tudo, o que mais me marcou na leitura foi a forma como ela escreve sobre ser mulher. há algo na escrita de clarice que apenas nós, mulheres, conseguimos entender por inteiro. suas palavras capturam a singularidade da nossa existência, as contradições, os medos, as descobertas e a solidão que só quem habita um corpo feminino pode sentir tão profundamente. não é apenas sobre o que vivemos externamente, mas sobre o que carregamos por dentro, sobre a forma como sentimos o mundo e, ao mesmo tempo, somos moldadas por ele. clarice traduz com uma precisão assustadora a sensação de estar presa a expectativas invisíveis, de lutar para se encontrar no meio de tantas exigências, de carregar angústias que, muitas vezes, nem sabemos nomear. ela não descreve a mulher como um arquétipo ou um conceito, mas como um ser singular, cheio de nuances e complexidades que raramente são captadas com tanta verdade. ler clarice também foi um lembrete profundo, quase um grito silencioso, para que eu aprenda a lidar melhor com minha própria companhia. sempre fui uma pessoa que fugia de si mesma, buscava nas distrações externas, no barulho, nos livros, nas músicas, um modo de não ter que encarar o vazio que sentia quando estava sozinha. evitava os momentos de silêncio, de introspecção, com medo do que pudesse encontrar. mas, ao me perder nos contos dela, fui forçada a olhar para dentro. clarice me obrigou, sem piedade, a confrontar minhas próprias sombras. mais do que isso, me ensinou a me encontrar ali, no silêncio, na solidão. ela me mostrou que, por mais desconfortável que seja, a nossa própria companhia é a única que realmente importa, a única que vai até a morte conosco. e, nesse processo, passei a perceber o quão importante é aprender a gostar de quem sou quando estou sozinha. cada conto foi como se clarice estivesse falando diretamente para mim, como se ela soubesse exatamente o que eu precisava ouvir naquele momento da minha vida. à medida que avançava na leitura, percebia que ela falava não apenas sobre a vida de outros, mas sobre a minha (o que achei muito louco). como se ela tivesse sido capaz de captar aquelas emoções, aquelas inseguranças, aquelas perguntas existenciais que eu sempre guardava no fundo da alma. e o mais impressionante é que, ao escrever sobre suas próprias lutas e descobertas, ela estava escrevendo sobre as minhas também. clarice tem essa habilidade única de tornar o íntimo universal, de transformar o pessoal em algo que ressoa profundamente com cada um de nós. e isso é o que torna sua escrita tão inconfundível e impossível de ignorar. além de mergulhar no íntimo de cada indivíduo, clarice também escreveu sobre a humanidade de uma forma quase brutal. ela expôs, sem filtros, as contradições, os impulsos, os medos e os desejos mais primitivos que habitam todos nós. suas histórias falam sobre solidão, amor, desamparo, sobre a busca incessante por sentido, sobre a inquietação de simplesmente existir. ela mostrou como somos frágeis, vulneráveis, mas também intensos e capazes de sentir tudo de forma avassaladora. além disso, clarice não se esquivou de tratar dos preconceitos, das normas sufocantes da sociedade, das injustiças e da maneira como muitas vezes tentamos encaixar as pessoas em rótulos para simplificar o que é complexo. ela mostrou a hipocrisia por trás de muitas convenções sociais e revelou, com sua escrita cortante, as contradições que nos fazem humanos. clarice não ofereceu respostas prontas, mas fez as perguntas certas, aquelas que nos fazem encarar o que realmente somos, sem ilusões. e, ao escrever sobre a condição humana com tanta honestidade, ela fez com que cada um de seus leitores se sentisse menos sozinho em suas próprias angústias. por fim, clarice é deslumbrante e merece ser lembrada de todas as formas. foi um prazer gigantesco ter a oportunidade de ler esta obra.

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    Clarice Lispector

    Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. De origem judaica, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus, durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Seu nascimento ocorreu em Chechelnyk, enquanto percorriam várias aldeias da Ucrânia, antes da viagem de emigração ao continente americano. Chegou no Brasil quando tinha dois anos de idade. A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania – irmã, todos mudaram de nome: o pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia – irmã, Elisa; e Haia, Clarice. Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante. Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche. Foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Foi inumada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro.

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    Vinnytsia, Ucrânia

    Clarice Lispector