Wintersong foi uma surpresa maravilhosa; uma releitura interessante do mito de Hades e Perséfone, se você juntar isso a universos fantásticos pouco explorados até então. O romance de estreia da autora S. Jae-Jones desenvolveu-se em uma narrativa poética e apaixonante, contando uma história de amor perigosa em um mundo traiçoeiro.
Elisabeth vive através da música. A composição delas faz parte de quem a personagem é, mas a família mantém os olhos no filho caçula, o aspirante a protegido de um importante músico da região. Em meio à solidão e às próprias lamúrias, Elisabeth não nota que alguma coisa despertou na floresta - e essa coisa está em busca de alguém. De uma rainha. O inverno está chegando, e o Rei Goblin precisa de uma esposa. Quando a irmã de Elisabeth é levada até o mundo mágico, cabe à garota destacar-se em meio à magia sombria para salvar aquela que ela ama, sem imaginar que esse universo fantástico pode ser a oportunidade para se encontrar.
"A última noite do ano. Agora chegam os dias de inverno e o Rei Golin vem até o mundo em busca da sua noiva."
Eu fiquei abismada com a qualidade dessa obra. Já imaginava que seria uma leitura fantástica, mas superou todas as minhas expectativas! S. Jae-Jones tem uma narrativa poética, apaixonante para quem já ama a escrita de autoras consagradas como Laini Taylor e Maggie Stiefvater (rainhas da minha vida). Além disso, toda a construção de mundo feita no universo de Wintersong é arrebatadora; nós temos o mundo real como conhecemos - Elisabeth vive na Alemanha, em uma vila com poucas promessas de grandiosidade - e o mundo abaixo dele, onde criaturas fantásticas ganham vida em meio às sombras e ao inverno interminável. A morada dos goblins e dos outros povos mágicos é assustadora, mas fascinante por causa disso.
Elisabeth foi uma protagonista muito bem construída. Nós vemos a história através dos olhos dela, e eu gostei muito de como, em meio à fragilidade, existe arrogância, egoísmo e inveja. Ela é humana, e uma humana marcada pelo pouco interesse dos pais, pela necessidade de destaque sem de fato conseguir alcançar nada notável. O pouco que ela fez de extraordinário - suas composições musicais - acabavam ficando sob a sombra do talento do irmão caçula, mesmo com ele fazendo o possível e o impossível para nomeá-la o gênio por trás daquelas melodias. As interações com a família, principalmente com a Käthe - que ela tanto anseia salvar - mostraram bastante da maneira com que Elisabeth se via e como viam ela. Ela não era uma sombra, mas sempre se entendeu como tal. E viver submissa e esquecida deixa cicatrizes na consciência dela, na maneira como reage à própria presença.
"Há música em meu espírito. Uma música selvagem e indomável que fala comigo."
Sua história é uma canção de inverno, melancólica e sombria e fria como se espera, mas com momentos grandiosos e arrebatadores bem desenvolvidos na narrativa poética da autora. Uma trama viva e encantadora envolvendo desejo e poder e mundos distintos convergindo através da música e da magia.
"Ele era real onde todo o resto era um reflexo."
O Rei Goblin é um grande mistério dentro da história. Ele é o segredo que Elisabeth quer desvendar, mas igualmente um problema no caminho da garota. Além do fato de termos uma mitologia quase inédita na literatura fantástica - não consigo me lembrar de nenhuma obra envolvendo goblins - também temos um personagem masculino extremamente bem escrito dentro da sua proposta. Personalidade fria, marcado pela solidão e pelo alento doloroso que é carregar a coroa daquele reino invernal, o Rei Goblin encontra em Elisabeth um espelho dos próprios sentimentos melancólicos, e também uma força na qual pode se sustentar para encontrar quem um dia ele já foi. Apesar de o livro entregar pouco sobre o passado do Rei, achei essa alternativa misteriosa interessante aqui; quem ele era antes de se tornar um governante importará para o próximo livro. Aqui, conhecemos o que a coroa fez com o personagem, quanto o poder o marcou.
O relacionamento entre os dois é a base principal do livro, e foi um romance que começou inesperadamente e se tornou uma mistura de sensações. Ambos dividem inseguranças, sem de fato dividi-las. Elisabeth tem seus medos e o Rei Goblin tem suas hesitações. Esses detalhes formam obstáculos que os dois precisam aprender a contornar para encontrar um ao outro; especialmente Elisabeth, teimosa e determinada e disposta a arriscar tudo o que conhece para entender o homem a quem jurou sua breve eternidade. Ela é uma rainha mesmo antes de aceitar se entregar a um rei, e a mágica vem através de suas melodias. Ele é um rei sem liberdade, sem visão do mundo, que encontra em Elisabeth o tipo de riqueza e vida que há muito não experimentava.
"A voz dele estava em todos os lugares e em lugar nenhum. Ele era o vento, ele era a terra, ele era as árvores, as folhas, o céu e as estrelas."
Eu me apaixonei pela ambientação de Wintersong, pela grandiosidade e pela solidão que o reino dos Goblins passou através das páginas. Mesmo um universo mágico outrora rico pode ser marcado por uma escuridão sem fim. Os detalhes sobre o inverno duradouro, sobre as antigas rainhas e sobre a sina do Rei são desenvolvidos com calma, dentro do seu ritmo, e encaixam com o crescimento da personalidade de Elisabeth.
"Uma vela não é nada além de cera e um pavio se não for usada. Eu preferiria acender a chama, sabendo que se apagará, do que me sentar para sempre na escuridão."
Em relação ao mundo humano, temos o pouco que a personagem deixou para trás e também o anseio dela para que isso não se perca. Elisabeth se divide entre ambos os mundos conforme começa a se encontrar em cada um deles; os mais diferentes tipos de amor e devastação desenvolvem-se na personagem, e é intenso e perturbador o quanto isso salta das páginas do livro.
"Eu sou o monstro do qual te alertei."
"Você é o monstro que eu clamo."
Wintersong é música e magia e paixão. É uma lenda antiga e uma trama simples, uma história de amor e de entrega e de pertencimento.