O contato com a Arte alimenta a alma, faz nascer um sorriso sereno no mais íntimo do ser.
Durante essa leitura fiquei viajando muito sobre a Poesia, sobre a força que tem e o seu papel no mundo.
Uma fala poética nos conta muito mais do que o que a princípio se propõe a dizer. A poesia abre a porta para o maravilhoso, para um mundo mais amplo e verdadeiro que o “mundo mundo vasto mundo”. É como um portal para outra dimensão, uma dimensão espiritual e mais próxima da realidade do ser.
Pois então!
Nenhum poeta houve como Shakespeare! Talvez Homero possa ombreá-lo, mas não superá-lo, certamente. Em Shakespeare a Poesia foi servida com excelência e brilhantismo inigualáveis!
E não estou falando de seus poemas hem! Estou falando da riquíssima linguagem poética que transborda de suas peças!
Ler uma peça de Shakespeare é uma profunda experiência poética. Sinto minha mente se alargando a cada nova metáfora estonteante, a cada nova imagem tão plena de sentido!
Realmente, Shakespeare é tão grande que é fácil duvidar que tenha sido um simples mortal.
Rei João
Essa peça faz parte dos dramas históricos de Shakespeare, ambientada no reinado de João Sem Terra, irmão do famoso Ricardo Coração de Leão. Foi o rei João quem assinou a Magna Carta, limitando os poderes do monarca e marcando um novo movimento na história.
É uma tragédia menos conhecida, escrita nos primeiros anos de Shakespeare, mas onde podemos ver o seu gênio em ação. Os personagens saltam das páginas e ganham vida. O destaque vai para o Bastardo, filho ilegítimo de Ricardo Coração de Leão, que sempre rouba a cena quando aparece.
“Juro que nunca amei tanto a mim mesmo
como agora, ao me ver reproduzido
na tela aduladora desses olhos.”
(Luís, ato II)
“Vou ensinar à tristeza a ter orgulho,
que a dor é altiva e ao sofredor faz digno.
Os reis que me procurem nos domínios
da minha grande dor.”
(Constança, ato III)
“Tu, valente pequeno,
grande apenas nas torpezas.”
(Constança, ato III)
“Se ouvir o pior vos causa medo, então
sobre vós caia o pior, sem ser ouvido.”
(O Bastardo, ato III)
“Como ele, hei de correr e, assim, parar.
De que vale a mais fúlgida carreira,
se o que há pouco era rei, agora é poeira?”
(Príncipe Henrique, ato V)
(11.09.10)
A TRAGÉDIA DO REI RICARDO II – William Shakespeare
“Ricardo II” é a primeira parte de uma tetralogia, que é seguida por “Henrique IV, 1ª parte”, “Henrique IV, 2ª parte” e “Henrique V”.
O que mais marcou essa leitura foi a percepção de como o estudo dessas vidas de reis deve ter contribuído para a visão tão profunda que máster Shakespeare tem da alma humana!
O que esses reis aprontaram! Caraca!
Sobre “Ricardo II”, basta dizer que o Bardo tornou sua morte mais heróica e poética. Pois há indícios de que na vida real Ricardo II foi morto de fome e sede, de tal modo que seus inimigos pudessem exibir seu corpo sem mostras de violência...
O papel da Rainha, esposa de Ricardo II, também é realçado e embelezado por Shakespeare. Pois a rainha de carne e osso contava apenas oito anos de idade quando seu esposo foi morto...
Ler sobre esses grandes reis do passado é mergulhar no negro poço das ambições humanas...
Achei marcante também o fato de não haver vilões e heróis bem definidos, tal como em outras tragédias de Shakespeare. Ricardo comete erros, mas não é de todo vil. Bolingbroke, seu sucessor (posteriormente chamado de Henrique IV), é nobre, mas não tanto...
Outra característica forte é o texto eminentemente poético.
Curiosamente, me senti um pouco frustrado ao fim da leitura. Talvez por conhecer o trágico desfecho histórico, o final da peça tenha me parecido com pouco poder de catarse...
(17.09.10)