Sobre o modo capitalista de pensar -

    José de Souza Martins

    Huctec
    1980
    82 páginas
    2h 44m
    ISBN-10: 8531411033
    Português Brasileiro

    Os quatro estudos reunidos neste pequeno livro podem ser classificados na área da sociologia do conhecimento. Embora os três primeiros sejam trabalhos de divulgação, estão marcados pela mesma preocupação que articula o último: a de valorizar uma das diretrizes mais profícuas do conhecimento sociológico, aquela que mostra o vínculo da prática e do saber no processo histórico. Entendo que o modo capitalista de produção, na sua acepção clássica, é também modo capitalista de pensar e deste não se separa. É verdade que essa ideia está dispersa nos textos de Marx e que tal conceito não chegou a ser formulado por ele. Surge aqui ainda de forma difusa, mais como premissa destes textos, resultado da minha própria leitura das suas obras sempre ricas e estimulantes. Estou desenvolvendo essa noção em outros trabalhos, para que amadureça devidamente. O modo capitalista de pensar, enquanto modo de produção de ideias, marca tanto o senso comum quanto o conhecimento científico. Define a produção das diferentes modalidades de ideias necessárias à produção das mercadorias nas condições da exploração capitalista, da coisificação das relações sociais e da desumanização do homem. Não se refere estritamente ao modo como pensa o capitalista, mas ao modo de pensar necessário à reprodução do capitalismo, à reelaboração das suas bases de sustentação ideológicas e sociais. O modo capitalista de pensar também está minado, não obstante, pelas contradições do capitalismo, fato que se reflete nas suas ambiguidades e dilemas. É o que leva para o conhecimento de senso comum e para o conhecimento científico as tensões do capitalismo, expressas nas diferenciações ideológicas e de tendências dentro da mesma formação social. É o que leva, enfim, o capitalismo para o pensamento de outras classes, como a pequena burguesia, o proletariado, os proprietários de terra. O modo capitalista de pensar é a mediação necessária na produção e reprodução em crise da alienação que subjuga quem não é capitalista, invertendo o sentido do mundo e dando uma direção conservadora e reacionária à ação que deveria construir a sociedade transformada, desvinculando e contrapondo entre si o saber e a prática.

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    Luiza07/11/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O livro reúne quatro textos escritos em diferentes momentos pelo autor e que também focam em diferentes temas, mas todos relacionados à Sociologia e seu papel como instrumento de transformação social. O primeiro texto chama-se “Tio Patinhas no centro do universo” e relaciona a história e personagens dos quadrinhos do Tio Patinhas com as relações e dinâmicas existentes na sociedade capitalista, que se organiza para acumulação, proteção e reprodução do capital. Capital este que se torna o protagonista das relações sociais e de trabalho. Foi sem dúvidas o meu texto favorito do livro e desejo relê-lo no futuro. Já o segundo texto, “A sociologia na militância do profissional de História”, defende como a Sociologia agregada à História permite que o profissional de História se veja dentro do seu objeto de estudo e possa se colocar como agente de transformação social. O terceiro texto é intitulado “Há uma crise no ensino das ciências sociais?”, no qual o autor analisa os debates sobre mudanças no ensino das ciências sociais, colocando em destaque o perigo da influência do mercado, exterior à universidade, para a redução e submissão das ciências sociais em favor da manutenção da ordem social e de mercado. Por último, têm-se o texto “As coisas no lugar” que, mais nichado e abstrato, é uma reflexão do autor sobre a existência de uma contradição conceitual na formação original da sociologia e como tal contradição original faz com que análise sociológica sempre se baseie em ideias-elementos opostas. Assim, discorre sobre a percepção sociológica do “rural” como antítese do “urbano”, o caráter instrumental que tal visão traz para o ramo da Sociologia Rural e, ainda, como a sociologia rural vêm servindo para a dominação e superação do rural, seu próprio objeto de estudo, pelo urbano. Livro indicado a quem se interessa por sociologia. O título “Sobre o Modo Capitalista de Pensar” se aplica na medida em que o autor explicita, de pontos de vistas diferentes em cada texto, as maneiras que o capitalismo se entranha no campo da sociologia, que, por sua vez, é a ciência de pensar as relações sociais. [Livro lido em novembro de 2019].

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