Os quatro estudos reunidos neste pequeno livro podem ser classificados na área da sociologia do conhecimento. Embora os três primeiros sejam trabalhos de divulgação, estão marcados pela mesma preocupação que articula o último: a de valorizar uma das diretrizes mais profícuas do conhecimento sociológico, aquela que mostra o vínculo da prática e do saber no processo histórico. Entendo que o modo capitalista de produção, na sua acepção clássica, é também modo capitalista de pensar e deste não se separa. É verdade que essa ideia está dispersa nos textos de Marx e que tal conceito não chegou a ser formulado por ele. Surge aqui ainda de forma difusa, mais como premissa destes textos, resultado da minha própria leitura das suas obras sempre ricas e estimulantes. Estou desenvolvendo essa noção em outros trabalhos, para que amadureça devidamente. O modo capitalista de pensar, enquanto modo de produção de ideias, marca tanto o senso comum quanto o conhecimento científico. Define a produção das diferentes modalidades de ideias necessárias à produção das mercadorias nas condições da exploração capitalista, da coisificação das relações sociais e da desumanização do homem. Não se refere estritamente ao modo como pensa o capitalista, mas ao modo de pensar necessário à reprodução do capitalismo, à reelaboração das suas bases de sustentação ideológicas e sociais. O modo capitalista de pensar também está minado, não obstante, pelas contradições do capitalismo, fato que se reflete nas suas ambiguidades e dilemas. É o que leva para o conhecimento de senso comum e para o conhecimento científico as tensões do capitalismo, expressas nas diferenciações ideológicas e de tendências dentro da mesma formação social. É o que leva, enfim, o capitalismo para o pensamento de outras classes, como a pequena burguesia, o proletariado, os proprietários de terra. O modo capitalista de pensar é a mediação necessária na produção e reprodução em crise da alienação que subjuga quem não é capitalista, invertendo o sentido do mundo e dando uma direção conservadora e reacionária à ação que deveria construir a sociedade transformada, desvinculando e contrapondo entre si o saber e a prática.
Sobre o modo capitalista de pensar -
José de Souza Martins
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Ver maisO livro reúne quatro textos escritos em diferentes momentos pelo autor e que também focam em diferentes temas, mas todos relacionados à Sociologia e seu papel como instrumento de transformação social. O primeiro texto chama-se “Tio Patinhas no centro do universo” e relaciona a história e personagens dos quadrinhos do Tio Patinhas com as relações e dinâmicas existentes na sociedade capitalista, que se organiza para acumulação, proteção e reprodução do capital. Capital este que se torna o protagonista das relações sociais e de trabalho. Foi sem dúvidas o meu texto favorito do livro e desejo relê-lo no futuro. Já o segundo texto, “A sociologia na militância do profissional de História”, defende como a Sociologia agregada à História permite que o profissional de História se veja dentro do seu objeto de estudo e possa se colocar como agente de transformação social. O terceiro texto é intitulado “Há uma crise no ensino das ciências sociais?”, no qual o autor analisa os debates sobre mudanças no ensino das ciências sociais, colocando em destaque o perigo da influência do mercado, exterior à universidade, para a redução e submissão das ciências sociais em favor da manutenção da ordem social e de mercado. Por último, têm-se o texto “As coisas no lugar” que, mais nichado e abstrato, é uma reflexão do autor sobre a existência de uma contradição conceitual na formação original da sociologia e como tal contradição original faz com que análise sociológica sempre se baseie em ideias-elementos opostas. Assim, discorre sobre a percepção sociológica do “rural” como antítese do “urbano”, o caráter instrumental que tal visão traz para o ramo da Sociologia Rural e, ainda, como a sociologia rural vêm servindo para a dominação e superação do rural, seu próprio objeto de estudo, pelo urbano. Livro indicado a quem se interessa por sociologia. O título “Sobre o Modo Capitalista de Pensar” se aplica na medida em que o autor explicita, de pontos de vistas diferentes em cada texto, as maneiras que o capitalismo se entranha no campo da sociologia, que, por sua vez, é a ciência de pensar as relações sociais. [Livro lido em novembro de 2019].
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