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    O fantasma da revolução brasileira -

    Marcelo Ridenti, Marcelo Ridenti

    Unesp
    2010
    324 páginas
    10h 48m
    ISBN-13: 9788539300037
    Português Brasileiro
    3.8
    7 avaliações
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    Este livro introduz o leitor nos anos 1960 e 1970, oferecendo-lhe uma visão abrangente, mas seletiva, dos fatos sobre os quais incide a análise histórica e sociológica. Análise séria e aprofundada, porém vazada em linguagem acessível, sem rebuscamentos dispensáveis. Aqueles anos de virada já suscitaram uma literatura numerosa de depoimentos pessoais, mas os trabalhos de pesquisa analítica ainda são escassos. Houve mesmo um declínio de interesse por aqueles anos malditos, na medida em que ganhou ímpeto, no país, o processo de finalização da ditadura militar e de reorganização democrática das instituições do Estado e da vida partidária. Generalizou-se o ponto de vista segundo o qual a esquerda, que se empenhou na luta armada, cometeu erros primários, a respeito dos quais não valia a pena perder tempo. Mas semelhante ponto de vista se diluiu e os anos rebeldes despertaram atração em época recente, associados à vivência das enormes dificuldades econômicas e das complicações políticas, sobre as quais não deixam de influir os acontecimentos internacionais relacionados com o desmoronamento dos regimes comunistas no Leste Europeu. Sendo assim, a publicação deste livro salienta-se por trazer respostas ou esclarecimentos às indagações das velhas e, sobretudo, das novas gerações politizadas ou despertadas para a atuação política.

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    Naiara Araújo picture
    Naiara Araújo15/01/2013Resenhou um livro
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    Sobre "O Fantasma da revolução brasileira" de Ridenti

    O livro O fantasma da revolução brasileira, de Marcelo Ridenti, professor titular de Sociologia na UNICAMP, foi adaptado de sua tese de doutorado, defendida na década de 1980. Seu livro está dividido em quatro partes subdividas em capítulos e estes em tópicos. Essas partes, em ordem crescente, intitulam-se: A constelação da esquerda brasileira nos anos 1960 e 1970; A canção do homem enquanto seu lobo não vem: as camadas intelectualizadas na revolução brasileira; Obscuros heróis, sem vez e sem voz: a inserção das esquerdas armadas nas bases da sociedade; e Luta, conspiração e morte. Seu prefácio nos chama para o lado pessoal, o que ele vivia enquanto eventos no campo político brasileiro se desenrolava. Lembra, neste momento o dia em que fora comprar um jornal para ver o resultado de uma partida de futebol e ao pegá-lo o que viu foi notícias de um homem morto, o qual posteriormente descobriria que era Marighella. Sem muito entender o que estava acontecendo, relaciona os seus momentos de infância contrapondo aos momentos difíceis porque muitos passavam naquele momento. Relembra o posicionamento do pai, alguns acontecimentos no campo musical e cinematográfico relacionando com acontecimentos descobertos posteriormente. Por fim, explica porque o título de seu livro é O fantasma da revolução, deixando claro o seu posicionamento teórico. Na primeira parte de seu livro, o autor traça um panorama dos partidos e movimentos políticos de esquerda que existiam na época do golpe, nos guiando por um emaranhado de siglas, partidos que se desmembram e dão origem a um novo partido, mas que possui semelhanças com o primeiro pelos princípios políticos abordados, ideais de luta, dentre outras características. Assinala que no início dos anos 1960 o predomínio entre as esquerdas era do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mesmo estando na ilegalidade. Ao lado do PCB surgem então a Ação Popular (AP), a POLOP e no Nordeste as ligas camponesas que no nome representativo de Julião expandiria e fundaria o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e assim sucessivamente. Quando o golpe estoura, contudo, o que se observa é a ausência das esquerdas. Após o golpe as esquerdas desprestigiadas começam a se desmembrar. Alguns partidos, então, veem a guerrilha no campo como uma forma de luta contra os militares. Seguindo o modelo da guerrilha feita por Guevara em Cuba e observando o texto de Debray três etapas eram necessárias: a instalação do grupo que inicialmente deveria se manter isolado, depois o desenvolvimento conquistando os camponeses e maior território e, por fim, realizarem a ofensiva ajudados pelas pessoas que convocaram. Discorrendo de maneira detalhada sobre a participação dos partidos nesse modelo de guerrilha rural, o autor se utiliza de entrevistas como uma comprovação ao que está afirmando, não chegando a questionar as falas usadas, ou dialogar com elas em parceria com a historiografia e os documentos que utiliza. Esse modelo de guerrilha proposto, portanto, era algo colocado pelo autor como um ponto comum entre as esquerdas que tinham como tarefa central derrubar a ditadura. Diversos foram os segmentos que pegaram em armas após o golpe, sentindo-se ameaçados: camponeses, militares expulsos, sindicalistas, políticos caçados, dentre outros. Esse projeto de guerrilha que vinha desde o início da década almejava agora impor resistência à ditadura. Nesse momento a ideia era mais fazer a revolução do que reestabelecer a democracia. Na segunda parte do livro Ridenti procura debater sobre o que ele chamou de camada intelectualizada. Para ele essa camada conta com artistas, cantores, o cinema, o teatro, os Centros Populares de Cultura, os Movimentos de alfabetização inspirados no modelo de Paulo Freire. Segundo o autor, os movimentos culturais estavam se articulando desde o início da década e, após o golpe, passam a ser reprimidos. Os movimentos culturais vão perdendo espaço e força ao passo que se veem sendo substituídos por uma industria cultural. Cresce a cultura industrializada enquanto a tradição popular, a cultura popular, é marginalizada, sofrem com a repressão – torturas, prisões, exílios para aqueles que não se enquadraram no modelo desejado. Também são colocados dentro do meio intelectual os estudantes. Apresentando dados quantitativos o autor observa que a participação dos estudantes pode ter sido ainda maior do que os números mostram, pois muitos deles também faziam estágios ou trabalhavam para poder bancar os estudos. A participação dos estudantes era algo bastante solicitado pelos partidos, dois deles são vistos com destaque pelo autor, a ALA e a VPR. Os estudantes se organizavam também dentro das universidades propondo melhorias no ensino, aumento do número de vagas, dentre outras coisas. O autor coloca ainda a participação dos dominicanos, que ajudavam principalmente na transferências de procurados para o exílio, e professores. Na terceira parte Ridenti dialoga com as camadas que ele chamou de base de sustentação da sociedade – empregados, funcionários públicos, autônomos, etc. – e a inserção delas dentro dos movimentos de esquerda. Contudo, ele observa como era difícil manter os trabalhadores engajados. Um exemplo de participação é trabalhado por ele, levantando a história e greve em Osasco. Em seguida o autor dedica algumas páginas para falar sobre a participação feminina na luta. Com uma visão um tanto generalizante sobre as mulheres ele afirma que a participação delas se dava mais por conta da inserção da família e/ou parceiro do que pelo seu entendimento/conhecimento da situação política. Além disso, afirma também que essas mulheres não haviam tido contato com as ideais propagadas pelo movimento feminista. Elas só conheceriam tais ideias quando estivem fora, em exílios. Ou seja, para o autor a participação feminina é colocada de maneira um tanto reducionista, apolítica e subordinada a participação masculina. Frases como “sempre foi mais difícil converter mulheres em soldados” (p. 197) assinala sua postura a respeito da participação da mulher, como se à mulher fosse mais apropriado o papel de Amélia do que este em que elas estavam se inserindo. Outra questão abordada nesta parte três é a participação dos ex-militares, que comumente chegavam a participar na luta contra a ditadura. Neste capítulo percebemos como os militares se constituíam em uma massa heterogênea. O próprio golpe, como o autor afirma, surgiu da “quebra da disciplina e da hierarquia militar” (p. 206). É notável também como os militares queriam que estivessem em cargos aqueles que fossem confiáveis e muitos deles foram demitidos por terem questionado o que estava sendo imposto, ou terem se oposto. No último tópico o autor trata sobre as ligas camponesas, observando um pouco de sua trajetória citando o exemplo que mais se aproximou da guerrilha rural que propunham, a guerrilha do Araguaia. Na última parte do livro o autor começa tratando da ilusão das esquerdas de uma permanência representativa. As esquerdas acreditavam que era a hora e a vez delas lutarem, mas o momento do golpe passou e elas perderam a chance, perderam a oportunidade de resistirem ao golpe e viveram alimentando essa ilusão. E com a ideia da clandestinidade, pois eles acreditavam que ela era necessária para se organizar a guerrilha, eles foram perdendo contatos e o momento de disparar a guerrilha parecia nunca estar pronto. A clandestinidade, como o autor observou a partir das entrevistas, trazia aos militantes de esquerda uma noção de liberdade, sem seguir leis, andando armados, indo de um lugar para outro. Mas também trazia consigo a solidão, vagando de um lugar para outro sem a família, parceiro(a), filhos, etc. Essa situação com o passar do tempo fazia com que os membros da organização se tornassem a família da pessoa. Com o aumento da repressão os grupos em clandestinidade tinham que, cada vez mais, se deslocarem e as dificuldades para conseguir mantimentos, remédio, etc., se intensificavam. Para fechar a ultima parte do livro o autor fala sobre o projeto de revolução que tinha sido pensado, sua vida e sua morte. Diante da análise do livro percebemos alguns detalhes que se faz importante no trabalho historiográfico, mas que por algum motivo o autor não pode ou não quis contemplar. Por exemplo, o cuidado ao dialogar com relatos orais e a relação que estes devem ter com a historiografia em uso. Notamos também que o uso de conceitos em seu livro são colocados sem uma dedicação ou trato sobre sua utilização, como, por exemplo, o próprio conceito de revolução. Esses pontos podem não ter sido discussões presentes no momento em que Ridenti escrevera sua dissertação e por isso aí não se encontram, ou podem não ter tido espaço dentro da vastidão de conteúdos por ele abordado, alguns citados de maneira rápida e superficial (como é o caso do Cinema Novo).

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    Marcelo Ridenti

    Professor Titular de Sociologia desde 2005 no IFCH/UNICAMP, onde defendeu tese de livre-docência (1999). Doutor em Sociologia (USP, 1989), graduado em Ciências Sociais (USP, 1982) e em Direito (USP, 1983). Pós-doutorado na EHESS, Paris (2000 e 2010). Ingressou na UNICAMP em 1998, fora docente da UNESP/Araraquara (1990-1998), e da UEL (1983-1990). Professor visitante na Universidade Columbia, Nova York (2014-2015). Tem experiência na área de Sociologia, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura/ arte e politica/ esquerda brasileira/ intelectuais/ pensamento marxista/ ditadura militar no Brasil/ anos 1950, 1960 e 1970. Autor de vários livros, capítulos de livros e artigos no Brasil e no exterior, entre eles, Brasilidade revolucionária - um século de cultura e política (Ed. Unesp, 2010), Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da tv (Ed. UNESP, 2a. ed. revista e ampliada, 2014), O fantasma da revolução brasileira (Ed. UNESP, 2a. ed. revista e ampliada, 2010). Foi Secretário Executivo da ANPOCS (2004-2008). Integrou órgãos de avaliação na FAPESP (2006-2012) e no CNPq (2010-2013). Orientou 28 mestrados e 13 doutorados concluídos, mais 4 supervisões de pós-doutorado. Seus ex-orientandos são docentes e pesquisadores na USP, UNESP, UNICAMP, Unifesp, UFG, UFMT, UFES, UFFS, UEL, Unioeste, SESC-SP, entre outras instituições.

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    Marcelo Ridenti