A história gira em torno de Jorge e Luísa, um casal burguês de Lisboa. Ele é engenheiro e ela, uma jovem esposa sonhadora, mimada, que vive uma vida fútil, mergulhada na literatura romântica. Os amigos do casal compõem um grupo de diferentes tipos humanos: o conselheiro Acácio, exemplo do homem convencional, de fala rebuscada e sem nenhum pensamento original, D. Felicidade, uma beata solteirona que nutre uma paixão secreta pelo conselheiro Julião, o médico Ernestinho, primo de Jorge, funcionário público que, nas horas vagas, dedica-se inteiramente ao teatro e Sebastião, fiel amigo do engenheiro, que guarda um amor delicado e secreto por Luísa. Dentro da casa, duas empregadas: Joana, a cozinheira, e Juliana, a arrumadeira, sempre mal-humorada, com um ódio profundo aos patrões em geral, invejosa dos bens que ela não conseguira ter na vida. Luísa tinha ainda uma amiga chamada Leopoldina, uma mulher muito bonita, de vida independente, mas que só podia visitar às escondidas de Jorge, porque ele a considerava má companhia para a esposa. Jorge vai viajar por algumas semanas e Luísa fica só em Lisboa. Recebe a visita inesperada de seu primo Basílio, com quem tivera um caso antes de se casar. Reatam a velha intimidade e tornam-se amantes. Ela fica seduzida por seus modos de homem viajado, elegante e moderno, que vivia em Paris e conhecia muitos outros países. Ele, no fundo, quer apenas passar o tempo na sonolenta Lisboa. Enquanto Luísa fantasia seus amores com Basílio, ele se preocupa apenas em arranjar um quartinho nos arrabaldes para seus encontros amorosos. Começam a ver-se tão frequentemente que a vizinhança percebe o que está acontecendo. Luísa comete a imprudência de escrever cartas a Basílio e, sem se dar conta, joga no lixo alguns rascunhos de suas declarações de amor. Juliana, que vivia a espreitá-la, recolhe e guarda esses rascunhos. Depois, consegue pegar duas cartas de Basílio para Luísa. De posse dessas provas do adultério, começa a chantagear Luísa, exigindo dinheiro para ficar quieta. Basílio promete ajudar mas cai fora, partindo para Paris e deixando Luísa à mercê de Juliana, que, entre outras exigências, obriga a patroa a fazer serviços de empregada. Quando Jorge retorna, começa a perceber a situação absurda que se criou em casa, com a mulher trabalhando e obedecendo a empregada. Desesperada, Luísa resolve contar o que está acontecendo a Sebastião, que elabora um plano para ajudá-la a resolver essa situação.
O Primo Basílio -
Eça de Queiroz
“E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido: sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”. Ler O Primo Basílio é como abrir uma janela escancarada para as vaidades, contradições e fragilidades do ser humano. Com um olhar super afiado e uma escrita que prende a gente, Eça de Queirós vai muito além de contar uma história de traição: ele faz uma análise dura da sociedade lisboeta do século XIX, escancarando a hipocrisia, a desigualdade e a moral meio capenga da época. E o mais interessante é que, mesmo sendo um livro de quase dois séculos atrás, continua atual demais. A história gira em torno de Luísa, uma jovem da burguesia, casada com Jorge, um engenheiro certinho e trabalhador, mas que vive meio ausente emocionalmente. A vida dela é confortável, mas sem graça, o que faz com que ela comece a alimentar fantasias românticas — muito por causa dos livros que lia e da solidão do casamento. Quando Basílio, seu primo sedutor, volta de Paris, ele parece tudo o que falta na vida dela: aventura, paixão, novidade. Mas esse sonho vira pesadelo rapidinho. Luísa não é exatamente uma vilã, mas também não é uma vítima. Ela representa aquela mulher presa aos padrões da época: recatada, obediente, mas cheia de carências emocionais. Sua queda não vem só do desejo, mas também da repressão e das ilusões criadas pela sociedade. E o Eça não tenta maquiar isso — pelo contrário, ele joga tudo na nossa cara, mostrando o abismo entre o que a gente deseja e o que realmente é. Basílio é o típico conquistador vazio: bonito, charmoso e cheio de papo, mas sem profundidade nenhuma. O interesse dele por Luísa é raso, como quem brinca com um brinquedo novo e logo enjoa. Quando as coisas apertam, ele some sem pensar duas vezes. Um covarde, egocêntrico e irresponsável. Já Jorge, o marido, é o cara que faz tudo certinho: trabalha, sustenta a casa, é educado. Só que ele é tão desligado que nem percebe o que está rolando debaixo do próprio nariz. Mas quem mais me marcou foi Juliana, a empregada. Ela é uma personagem cheia de camadas: amarga, rancorosa, ambiciosa e vingativa. Vive revoltada com a vida que leva, sem dinheiro, sem beleza, sem status. Quando descobre o caso de Luísa, vê ali uma chance de se vingar — e também de tentar mudar seu destino. Sua chantagem não é só vingança pessoal, mas também uma resposta brutal à desigualdade que ela vive. Embora seja cruel, sua atitude é, em certo sentido, uma reação à vida que ela foi forçada a viver, sem chances de crescimento. A presença de Juliana é essencial para a narrativa, pois traz uma tensão e uma dose crua de realidade, mostrando a luta de quem está à margem e a vontade de mudar seu destino. Os outros personagens também têm seu peso e ajudam a reforçar a crítica social do livro. Leopoldina, por exemplo, é aquela mulher que desafia as regras da época, mas paga o preço sendo malvista. Sebastião é o amigo moralista. Conselheiro Acácio é uma caricatura perfeita da burocracia vazia. Dona Felicidade, apaixonada pelo Conselheiro, é o retrato da mulher que se anula para seguir o que a sociedade espera. E ainda tem o Senhor Paula e Julião, que completam o círculo social cheio de máscaras. Lisboa, inclusive, é quase um personagem à parte. A cidade, com seus salões chiques e suas vielas escondidas, espelha essa sociedade de aparência que o Eça descreve tão bem. No começo, parece que a história vai ser só sobre traição, mas aos poucos o clima vai ficando pesado, tenso, cheio de culpa e medo. Eça vai construindo isso com muita sutileza, sem exagerar, mas com uma profundidade que impressiona. Sua ironia é certeira! Uma coisa que pode incomodar um pouco são os capítulos longos. Em alguns momentos, a leitura exige tanta atenção que pode parecer um pouco arrastada. Ainda assim, insisto: vale muito a pena continuar, porque a riqueza dos detalhes compensa qualquer esforço. No fim das contas, O Primo Basílio me surpreendeu mais do que eu esperava. Eça de Queirós entrega um retrato humano, cheio de falhas, mas muito real. Cada personagem tem sua crítica, mas também sua história. E, conforme a narrativa avança, fica evidente que, apesar do tempo, a sociedade pouco evoluiu — seguimos cometendo os mesmos erros, apenas disfarçados sob novas máscaras.
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