Prima Phillis, de Elizabeth Gaskell, foi lançado em português no formato digital há pouco mais de um ano pela Pedrazul Editora. Embora eu seja extremamente fã da autora inglesa e tenha decido ler tudo e qualquer coisa escrita por ela desde que traduzida para o português (enquanto o meu inglês não permite voos tão altos), alguns títulos já publicados ficaram no limbo, ultrapassados por outras leituras e afazeres. Felizmente, domingo passado, tirei algum tempo para ler Prima Phillis. Não sabia tanto da história, já não me lembrava da sinopse e foi maravilhoso ir descobrindo detalhes e me deixando levar pela narrativa sempre viciante de Gaskell.
Prima Phillis foi publicado originalmente em 1864. É uma novela narrada em primeira pessoa pelo personagem Paul Manning. Funcionário de uma ferrovia, ele se vê próximo a alguns parentes de sua mãe e, a pedido dela, passa a visitá-los ocasionalmente. Phillis é prima de Paul, filha única de um clérico-fazendeiro e de uma modesta dona de casa. A jovem moça e o pai têm em comum o amor aos livros e às línguas clássicas, o que surpreende e até incomoda um pouco Paul. Uma jovem vitoriana conhecedora de grego e latim? Um verdadeiro disparate!
Phillis, apesar de sua inteligência, é inocente e até infantil. Seus pais, como natural, tratam-na como um tesouro valioso, e acabam ressaltando ainda mais o caráter pueril da moça. A rotina da família na fazenda Hope era tranquila e previsível. Cada qual cumpria com seus afazeres e havia paz naquele lugar. Até que um dia Paul, que era deslumbrado com a perfeição de seu chefe na ferrovia, Mr. Holdsworth, resolve levá-lo até a fazenda, a fim de apresentá-lo à família Holman. A partir daí as coisas começam a mudar, conforme a família passa a admirar, sem reservas, o visitante.
“Minha prima Phillis era como uma rosa que floresceu totalmente no lado ensolarado de uma casa solitária, protegida contra tempestades. Li em algum livro de poesia:
‘uma donzela que não tinha ninguém para elogiar, e poucos para amar.’
E, de alguma maneira, essa frase sempre me faz lembrar de Phillis, embora elas não fossem verdadeiras a respeito dela também.”
Tenho lido, internet afora, algumas críticas à Prima Philis, no sentido de ser um livro razoável, mas que não mostra a genialidade de Elizabeth Gaskell. Certamente, Margaret Hale (Norte e Sul) e Esposas e Filhas estão em um patamar diferente, até por serem romances, histórias maiores e com (ainda mais) sutilezas as quais a autora conseguiu ser pontual e pertinente em suas obras. Se você ainda não leu nada de Gaskell, eu sugeriria o seguinte: em algum momento, leia Margaret Hale (Norte e Sul) e Esposas e Filhas, pois são romances indispensáveis para quem pretende ler ou já está lendo o cânone de literatura inglesa. Mas não pare neles! Charles Dikens, volto a repetir, não errou quando disse que Elizabeth Gaskell era uma verdadeira Sherazade. É simplesmente impossível abandonar um livro da autora. O enredo pode ser o mais simples, como no caso de Prima Phillis, que tem um final até certo ponto previsível, mas ela te envolve e você precisa ler só mais uma página para ver o que acontece, até que chega ao final.
Eu adorei Prima Phillis. A novela é um retrato do que a vida pode ser, de que nem sempre temos controle sobre nossos sentimentos e sobre as pessoas. Terminei melancólica que só vendo… mas uma melancolia boa, de satisfação por ler mais uma história bem escrita de uma das minhas autoras favoritas.