Neste belo romance, o leitor entra na casa pela vigília de uma moribunda que se recusa a morrer, numa das lembranças de um narrador criado e hipnotizado por uma respeitada família matriarcal. Depois, nunca mais se escapa dela, ficamos ali pelos cômodos, na calmaria e calor de palavras e frases que aconchegam a leitura. Nos quartos contíguos da casa da avó, dorme também tia Dália, o quarto dentro do quarto, o teto sem forro onde se pode ouvir a intimidade. O leitor ouve a chuva, tomando caldo de mocotó, adentrando a casa que guarda uma caixa de marionetes, a casa mesma tem seus personagens acionados por cordéis, fatos e distorções de um narrador que não tem pressa de contar e lembrar a invenção que é a família, a consanguinidade envenenando e fechando o círculo bem apertado.
A Casa das Marionetes -
Santana Filho
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Ver maisA casa das marionetes (e suas articulações) - [MInha resenha na Revista Germina]
“Aí vindes outra vez, inquietas sombras?” é o verso inicial da dedicatória que Goethe endereça a seus já falecidos amigos, na sua obra máxima Fausto. É por ela que o visitante d’A casa das marionetes, de Santana Filho, publicado pela editora Reformatório, é recepcionado já no batente da porta. Contudo, para que a evocação goetheana ganhe sentido expressivo nesse contexto, é pertinente ir um pouco mais além em seus versos. Nada mais além, contudo, do que os dois primeiros. Ei-los, na tradução de Jenny Klabin Segal: “Tornais vós, trêmulas visões, que outrora Surgiram já à lânguida retina?” Nos versos acima, um contraste marcante estabelece-se entre o presente envelhecido do eu-lírico e seu passado juvenil (“lânguida retina”), época esta em que as “visões” o circundavam, vivas, não “trêmulas” ainda. É o que comparativamente acontece com o inominado narrador desse romance, invocando essas “visões” em seu apartamento em Madri, com a retina tomada por catarata, mas com a visão apurada para reconhecer ainda, num programa de tv, a antiga rua das Étoiles de sua infância, e a mente lúcida para desemaranhar os fios psicológicos que comandavam as articulações dos entes familiares do passado. Rememorações Qual seria a trama d’A Casa das marionetes? Nenhuma propriamente. O livro é uma espécie de vagar lírico nas searas ainda não plenamente aparadas do passado. Um vagar bem curioso, por certo, visto que, tal como A vida e as opiniões do cavalheiro Tristan Shandy, de Lawrence Sterne (mas guardadas as devidas e enormes proporções), ao caminharmos com o narrador-personagem por entre essas searas de memórias, acabamos sabendo menos sobre ele do que dos numerosos parentes com quem convive, em temporadas de férias, na casa de sua avó. O romance segue assim um pouco como a estética proustiana, enfocando personagens, “desnudando-os” camada por camada, a fim de que possamos ver sua “agitação interior” em contínua relação-reação ao meio provinciano em que vivem. Nesse direcionamento é que o livro encontra sua unidade e escopo, os capítulos se dedicando a enfocar individualmente os entes queridos do narrador, numa admirável sondagem interna, e acima de todos, as tias dele. Obsessão maior do personagem (e do autor), as tias assumem uma simbologia difusa e ambígua na vida do então jovem personagem, tangenciando o misticismo, a sensualidade, a formação de um olhar crítico, além do “abre-te sésamo” do passado obscuro e íntimo dos personagens. De todas, a que ganha mais relevo é Dália, uma personagem deveras intrigante. Aparentemente com alguma anomalia mental, essa criatura se relaciona de maneira singular com a existência. Inebriada com a natureza, dada a acompanhar os cortejos fúnebres dos habitantes da cidade e entregue ao mais profundo misticismo, é ela que inicia o narrador nos mistérios da existência: “Eu a acompanhava inclusive aos velórios da cidade e mesmo das imediações, nas cidades próximas, aonde íamos escondidos de minha avó, na jardineira do seu Floriano. Expandiam-se as diligências porque a pequena população local não produzia defuntos suficientes para aplacar sua necessidade de velá-los, deixando-a irrequieta diante da ociosidade, quando deveria haver almas precipitadas necessitando daqueles serviços. Nessas ocasiões, mais do que a inércia do morto dentro do caixão, a palidez de sua pele exangue ou os lamentos dos familiares ao redor, impressionava-me o olhar vívido de tia Dália, que parecia concentrar nos dois olhos toda a vitalidade do resto do corpo. Da cadeira onde permanecia sentada e imóvel, sem desviar os olhos do ataúde, ela conduzia o falecido a caminho da escuridão, guiando-o pela viagem subterrânea, como se de lá tivesse regressado há pouco, conhecesse os reinos escuros e pudesse garantir que não havia razão para temores ou maus pensamentos, tornando-se fundamental para o deslocamento do viajante até a plataforma da eternidade.” Figura em tudo oposta a da mãe do narrador. Descrita como uma mulher vaidosa, incapaz do menor esforço – ainda que este implique num gesto carinhoso de suspender um filho para pô-lo em seu colo – é sintomática a sua pouca presença na narrativa. Particularmente interessante é a relação que tem com o tempo através da imagem física, numa espécie de desalento que se mostra e se oculta na consciência. Imagem que encarna mais plenamente a autoridade materna é a da avó do personagem, alicerce central da família; tanto assim que se faz a requisitada madrinha de tantas crianças habitantes da cidadezinha (as quais trata com rígida disciplina). Apreciadora de pequenos “saraus” que promove em sua casa, onde se encena o pequeno teatro de marionetes de seu pai, não deixa de ser ela mesma a regente de tantos destinos que se abrigam em sua residência, dos filhos aos agregados. Sua construção é tal que ela acaba por se afigurar a nós a um só tempo próxima e peculiar, com sua vontade imposta através da inatacável autoridade dos ditos populares, mas com um passado fascinante. No ambiente desse matriarcado, os homens acabam por se tornar figuras secundárias. A exuberante vida interna de suas esposas ou parentas reclama de tal maneira espaço nesse palco que ou minguam-se seus sonhos e desejos (caso do infeliz tio Bernardo) ou simplesmente optam por saírem de cena – caso do avô do narrador que parte rosianamente num barco sem retornar mais para a família. Por essas rememorações, que afloram pela lente analítica e pelo insight, passeia o narrador, iluminando individualmente na ribalta de suas lembranças e de cada capítulo, esses personagens, tecendo seus destinos e como cada qual deles acaba por afetar marcantemente a compositura geral da peça. No fim, é na singularidade com que cada um deles lida com as grandes questões da existência (morte, loucura, paixão, espiritualidade, a vida provinciana etc.) que se encontra a estrutura basilar da obra. Santana Filho conduz a obra com um estilo preciso, entre o lirismo e o rigor objetivo. Proustiana em seu detalhismo e formulações metafóricas, sua escrita contudo é parcimoniosa nos recursos que utiliza. O trabalho da editora Reformatório, de resto, mantém-se na média da competência que lhe é própria, harmonizando-se com o trabalho literário do autor. A casa das marionetes é obra que, em suas raízes, remonta à narrativa memorialista de início da modernidade, não deixando contudo – não obstante a lente afetiva da memória – que os contornos desses títeres, representantes vivos da humanidade, deformem-se, afastando-se da análise implacável e inquietante, atributos que referendam a leitura.
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