"você tem cara de quem cheira a mel
e nenhuma dor
me deixa experimentar um pouco"
Leite e Mel ou Outros Jeitos de Usar a Boca é a primeira coletânea de poemas da famosa poeta contemporânea Rupi Kaur. Na minha opinião, Rupi é uma poetisa extremamente talentosa, mas, sendo bem sincera, sinto falta de um desenvolvimento maior em sua escrita. Sempre finalizo suas coletâneas com a sensação de que faltou alguma coisa, faltou o recheio, a cobertura e a cereja, restando um bolo de chocolate amargo gostoso, mas simples.
Seu coração, suas dores, seus medos, desejos e esperanças estão expostos em seus livros para quem quiser lê-los, e eu admiro muito isso. No entanto, o que me incomoda são seus versos pequenininhos, esses versos são muitas vezes quebrados abruptamente, a autora poucas vezes se aprofunda. Por mais talentosa que seja, Rupi se limita a uma poesia que deixa a desejar e pouco a refletir, o que parece ser o padrão adotado pelos poetas da nossa geração. O que é uma pena, pois o talento e o potencial dela estão sendo desperdiçados.
Esta obra é perfeitamente adequada e mediana, um livro de 3 estrelas, entretanto, nutro um carinho muito forte pela autora, é como se ela fosse minha amiga, aquele tipo de amiga que eu adoraria marcar para tomar um chocolate quente e conversar por horas. Inclusive, gostaria muito de conhecê-la e assistir com os olhinhos brilhantes suas palestras.
Rupi Kaur parece ser uma mulher maravilhosa, sua história de vida inspira e seu talento brilha como diamante bruto. Apenas fico triste por sentir que a própria poeta parece presa na estrutura da poesia contemporânea, a qual é facilmente adorada, mas pouco aprofundada. Amo quando ela se solta e preenche as páginas com muitos versos delicados e intensos, esses, sim, são meus poemas favoritos e valem o livro inteirinho. Queria muito que todos os seus poemas fossem desse jeitinho que transborda e não se limita a poucos versos.
"pai. você sempre liga sem ter nada especial a dizer. você pergunta o que estou fazendo ou onde estou e se o silêncio entre nós se estende por uma vida dou um jeito de encontrar perguntas que façam a conversa continuar. o que eu queria mesmo dizer é: eu sei que o mundo te despedaçou. foi com tudo pra cima de você. não te culpo por não saber ser delicado comigo. às vezes fico acordada pensando em todos os machucados que você tem e nunca vai dizer. eu venho do mesmo sangue dolorido. do mesmo osso tão sedento por atenção que desabo em mim mesma. eu sou sua filha. eu sei que a conversa-fiada é o único jeito que você conhece de dizer que me ama. porque é o único jeito que eu conheço."