Estando entre o simbolismo, parnasianismo, naturalismo e pré-modernismo, a poesia de Augusto dos Anjos traz tanto o misticismo, a estrutura formal poética, a degradação humana e a linguagem informal, que são temas contrastantes que o poeta consegue harmonizar. Sua linguagem rebuscada, ao mesmo tempo em que utiliza termos complexos da química e medicina, traz uma novidade ao lirismo ao utilizar de palavras não-líricas, como “cuspe”, “podre” e muitos outros que remetem à putrefação e degradação cadavérica. O tema principal da obra madura de Augusto dos Anjos é justamente a morte e as transformações do corpo que traz consigo o vazio existencial. O pessimismo é muito presente, e a figura e filosofia de Schopenhauer são constantes na obra, além do próprio Buda e o Nirvana são temas recorrentes.
A morte também traz certo panteísmo para Augusto dos Anjos, pois o corpo se dissolvendo alcança libertação em sua matéria primordial, fazendo parte dos vermes e bichos que lhe comem. Esse panteísmo se resume nesta frase “Confundir-me com aquela coisa porca!”. Tudo é inconstante e tudo muda, como dizia Buda e Heráclito, e para Augusto dos Anjos é o verme o “fator universal do transformismo”, e chamando este verme de Deus-Verme, pois livra o corpo humano da forma humana. A carne podre, imprestável para nós, é a riqueza do verme e delicioso banquete.
Já a poesia imatura do autor tem outra cara, é muito mais parnasiana, com toques de romantismo, sem os temas niilistas da obra madura, mas ainda assim contém temas filosóficos. A maioria são sonetos, muito dedicados a amigos, mas os mais bonitinhos são para os irmãos. Estes são poemas de talento, mas sem o tom inventivo da obra madura. Acho até que essa coletânea deveria ter começado pelas obras imaturas para acompanharmos a evolução do poeta.
Dois pontos marcantes que encontrei na poesia dele falam, claro, sobre morte, mas um era a poesia sobre a morte de um filho prematuro, e ele fala da desprezível putrefação da matéria, além de ter sido antes humano, e ser humano é um agregado de órgãos, neurônios e tecidos. Mais forte é pensar naquilo que geralmente não pensamos com a morte de um ente querido, mas que é realidade imediata: o corpo vai feder! Mas logo e regozija no descanso atemporal e mística negativa do nada, retornando ao seu panteísmo: “Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, / Panteísticamente dissolvido / Na noumenalidade do NÃO SER!”
A outra morte que gera poesia é a do pai, retratada desde a agonia dos instantes finais até o estado cadavérico. Isso é retratado em três poemas: “A meu pai doente”, “A meu pai morto” e “A meu pai depois de morto”. O interessante dessa série é que passa de uma poesia mais clássica/romântica nos dois primeiros poemas para uma brutalmente moderna no último. No primeiro poema há a esperança em Deus: “Deus não havia de magoar-te assim!”. No segundo poema há a crença num céu: “Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!”. Já no último poema a realidade crua: “Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos / Roída toda de bichos, como os queijos / Sobre a mesa de orgíacos festins!...”
Com isso, se pode ver que Augusto dos Anjos é a transição entre dois mundos e zeitgeist opostos: clássico e moderno.