Essa edição apresenta textos que mostram a filosofia se entrelaçando com a teologia. São nítidas as influências de Platão e dos pitagóricos na interpretação alegórica que o autor promove das Escrituras: o Deus do "Gênesis" aproxima-se do Demiurgo (que é também assim citado por Fílon, que escreve em grego) e o Lógos cria as Ideias. Em sua interpretação do primeiro livro da Bíblia, páginas e páginas são ocupadas com os paralelos estabelecidos entre as características de cada número, os dias da criação e as criaturas.
Estão também presentes reflexões acerca da incorruptibilidade do mundo - que não poderia ocorrer; afinal, não existe um "fora" do mundo pelo qual a corrupção poderia se insinuar. A imutabilidade de Deus também é tratada, sustentando Fílon que naquelas passagens em que há características humanas atribuídas a Deus existe, aí, um caráter pedagógico para inculcar, nos homens menos dados à reflexão, o caminho correto a ser seguido. Ao fim, alguns textos sobre a providência, demonstrando-se a sabedoria divina na distribuição das criaturas em seus lugares respectivos (até mesmo as chuvas e a seca).
Essa obra tem um texto introdutório bastante didático, ressaltando-se contudo que é escrito pela perspectiva católica (e notadamente tomista) de Carlos Nougué. Não que isso venha a desmerecer o tratamento conferido a Fílon, mas a obra desse pensador vai ser perscrutada sob essa ótica e, com isso, são identificados "defeitos" e incompletudes. Mas alguns alertas são válidos - a exemplo do tratamento dado por Fílon à matéria com a qual foi moldado o universo: ela é criada ou incriada? Segundo Nougué, isso não fica claramente estabelecido, na reflexão de Fílon.
É uma obra importante e de leitura agradável. Para interessados em filosofia e teologia.