APRESENTAÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO Os textos do escritor paulista José Agrippino de Paula, PanAmérica (1967) e Nações Unidas (1968), constituem objeto de investigação de Supercaos: os estilhaços da cultura em PanAmérica e Nações Unidas, cuja primeira edição é de 1980.1 Para esta segunda edição, manteve-se integralmente a versão já publicada. As únicas alterações efetuadas foram no sentido de adequar referências temporais, que delimitavam de maneira muito marcada a época da leitura dos textos de Agrippino de Paula e da produção da escrita do Supercaos. A opção por preservar a versão original liga-se ao fato de ser o livro uma referência para a crítica do escritor paulista, por ter sido o primeiro estudo de sua obra. Ainda que a leitura desenvolvida em Supercaos seja caracterizada por investimentos teóricos situados temporalmente no que diz respeito à crítica direcionada aos meios de comunicação de massa, inspirada pelas ideias de Theodor Adorno e Walter Benjamin e pela Escola de Frankfurt, sua atualidade resulta de uma postura interpretativa que já assinala a passagem da crítica literária para a crítica cultural no Brasil. Consta também desta segunda edição o ensaio intitulado “Literatura, cultura e crítica: o caso Agrippino de Paula”, apresentado na Universidade Federal de Juiz de Fora, em maio de 2012.2 Trata-se de uma reflexão que procura situar a produção de José Agrippino na literatura brasileira hoje, transcorridos 45 anos de publicação da epopeia pop- -tropicalista PanAmérica de José Agrippino. Se Supercaos foi escrito uma década após o aparecimento dessas obras, ainda sob o impacto da novidade e da originalidade desses textos, em “O caso Agrippino de Paula” pretende-se discutir indagações que são postas a partir da trajetória histórica dos textos de Agrippino na cena cultural brasileira, verificando- -se a sua inserção tanto na história da literatura, como a sua repercussão na crítica contemporânea. Quando aparecem na cena literária da década de 1960, PanAmérica e Nações Unidas não se constroem seguindo os padrões tradicionais da representação, mas se configuram como simulacros: cópia de cópia. Não é a realidade imediata que lhes fornece o seu conteúdo – as relações e os sentimentos humanos, os conflitos íntimos dos personagens, que não comparecem ao texto –, mas uma realidade secundária: a imagem de um ídolo de massa, um clichê que aparece repetidas vezes nos meios de comunicação, o vasto repertório de ícones e marcas da publicidade, a tecnologia da produção cinematográfica, das histórias em quadrinhos e da publicidade. Então, esses textos suscitam a indagação: uma literatura ou um vasto painel antropológico da sociedade do espetáculo? Em se tratando de PanAmérica e Nações Unidas, o ou se torna improcedente, pois eles se apresentam múltiplos e afastados de qualquer dicotomia binária. Incorporam diversos discursos e movimentam-se através de variadas fronteiras multiculturais, delineando uma cartografia que demarca os processos de globalização que vão caracterizar o capitalismo multinacional. Paradoxalmente, eles expõem os processos de globalização emergentes nas sociedades contemporâneas – hoje em plena consolidação e expansão –, articulando-se a partir de um país da América Latina, econômica e tecnologicamente subdesenvolvido, como se caracterizava o Brasil na década de 1960, período de expansão do monopólio imperialista dos Estados Unidos e da pax americana. Por essa via, os textos aqui abordados colocavam em crise valores culturais, literários e artísticos, rompendo as fronteiras entre uma arte considerada culta, instituída, e outra que se produzia à margem das instituições. O processo de democratização que se anunciava na literatura e nas artes abalava tanto os procedimentos de produção, quanto de apreciação e de recepção, evidenciando-se ainda o caráter mercantilista das produções culturais e artísticas na sociedade capitalista. PanAmérica e Nações Unidas apropriam-se de temas e ícones dos meios de comunicação de massa, dos objetos de consumo e da indústria cultural. Esses aspectos são incorporados aos procedimentos construtores das narrativas, que se constituem com técnicas do cinema de Hollywood, das histórias em quadrinho, da pintura pop. Em PanAmérica a história, ou melhor, os fragmentos de história são montados a partir de um eu narrador, que se repete insistentemente, obsessivamente, através de um processo de colagem que evidencia a superficialidade e o achatamento dos acontecimentos narrados, ou seja, da própria história, bem como do sujeito que se dispersa na narrativa. Nesse sentido, como texto da cultura do simulacro, que é também a cultura da imagem do mundo como espetáculo, Agrippino de Paula encontra nessa superficialidade um dos componentes principais do processo de construção, deslocando o modelo da profundidade narrativa que caracterizou a arte da primeira metade do século 20. O eu narrador-protagonista, que pode ser um super- -homem ou super-herói, desliza pelo espaço textual assumindo diversos papéis – diretor da superprodução cinematográfica, homossexual, soldado e guerrilheiro na América Latina –, juntando os fragmentos de episódios ou cenas que se conectam segundo a lógica alucinada das fantasias e das associações oníricas. Esse narrador não concatena os episódios seguindo uma ordem temporal, mas transforma o passado-presente-futuro em uma vasta coleção de imagens que se superpõem e se amontoam ludicamente no espaço textual, um espetacular simulacro, mera imagem de si próprio. Ao enquadrar e superpor imagens geográficas, políticas, históricas e culturais tão díspares – cenas de uma filmagem hollywoodiana com episódios sociopolíticos da América Latina – os textos de Agrippino, através de sua montagem heterogênea, nos coloca diante de uma dispersão de imagens, como se fossem telas de cinema-televisão empilhadas, impossibilitando qualquer tipo de totalização e de unificação do sentido das cenas projetadas. Aliás, essa técnica aparece como proposta de encenação teatral da peça Nações Unidas, ainda inédita. No prefácio da peça, que teve alguns fragmentos montados para o teatro com o título de Rito do amor selvagem, Agrippino explicita que o objetivo principal da superposição de cenas, dos instrumentos eletrônicos e dos movimentos coreográficos, é produzir o caos. E foi esta a proposta tomada como fio condutor da leitura interpretativa desses textos, em Supercaos: os estilhaços da cultura em PanAmérica e Nações Unidas. No prefixo super – o mesmo que está na satírica colagem “Superbacana” de Caetano Veloso: “super-homem / superflit / supervinc / super-hist / superbacana” – inscrevem-se as imagens de uma produção cultural que, nos idos da década de 1960, os textos de José Agrippino de Paula já incorporavam de maneira tão turbulenta, anárquica, hiperbólica e inédita na literatura brasileira. O caráter anárquico da escrita de José Agrippino promove outras conexões estabelecidas com os movimentos de contracultura e demais movimentos pop – a geração beat, o rock, os hippies, o cenário das drogas e das manifestações estudantis, as atividades políticas e culturais da esquerda antiautoritária. Transcorridos tantos anos, PanAmérica e Nações Unidas continuam suscitando profícuas indagações e, por serem um marco de ruptura na literatura brasileira no que diz respeito aos processos de mercantilização da literatura e da arte, são cruciais para se pensarem as relações entre literatura, cultura e crítica na contemporaneidade. Agradeço a todos aqueles que contribuíram para esta reedição de Supercaos, especialmente a Wander Melo Miranda, pelo incentivo, e a Pedro Alaim Martins Garcia Júnior, pela dedicada preparação do material em todas as etapas.
