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    O artista da pá (Contos de Kolimá #3) -

    Varlam Chalámov

    Editora 34
    2016
    424 páginas
    14h 8m
    ISBN-13: 9788573266283
    Português Brasileiro
    4.6
    36 avaliações
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    Do comboio de prisioneiros que o levou até o campo de Víchera, nos Montes Urais, em 1929, até a longa viagem de trem de Irkutsk a Moscou, em 1953, quando ele finalmente retorna de seu calvário nas geladas minas de Kolimá, no leste da Sibéria, Varlam Chalámov registra, nos 28 contos de O artista da pá, a luta pela sobrevivência no contexto de uma das maiores tragédias da humanidade: os campos de trabalhos forçados na União Soviética stalinista, onde morreram milhões de pessoas. Enquanto alguns autores da literatura de testemunho, como Soljenítsin, buscam um retrato abrangente e moralizante do ocorrido, pregando a redenção por meio do sofrimento, Chalámov vai na direção oposta: sua narrativa seca e objetiva, de ascendência tchekhoviana, expõe os detalhes de cada situação vivida por ele e seus colegas de prisão, deixando uma marca indelével na memória dos leitores. Seu estilo - descrito pelo próprio autor no ensaio Sobre a prosa, recolhido ao final deste terceiro volume da série Contos de Kolimá - vem conquistando cada vez mais admiradores, como a Prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, que considera Chalámov o maior escritor do século XX.

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    Rômulo Lopes13/03/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A integridade da vida

    Já sabemos que hoje qualquer aproximação de obras que são verdadeiros projetos de vida,se torna um calabouço dependendo da entrega do autor e seu desprendimento daquilo que se escreve, perpétua e denuncia. Varlam Chalámov trouxe à tona toda sua vida, seu trabalho e esperança nas páginas destes "Contos de Kolimá" como, primeiramente denúncia do horror dos campos de "trabalho" russo, e em segundo - o que vai se formando através dos volumes - todo e qualquer esquema artístico que alivie uma pena, de si, do mundo, enovelando o leitor num estado ambíguo entre a infinitude literária e a rápida finitude humana. Claro que deveria ser diferente, mas o horror elaborado e o terror enraizado não nos deixa suportar esse desejo. Mesmo que tenhamos isso consciente, não ocorre. Olhar aquele mundo, às vezes, é afastá-lo mais depressa possível. Não vivemos para isso. São cotidianos e realidades que se automutilam, dentro de um sistema que sofre uma metástase terrorista a ponto de um banho significar um anseio ao ódio. Precisa-se aqui odiar, criar um sentimento que evidencie e interrompa cada ação contrária ao humano, regida por ideologias que nem sequer conseguem se suportar - nenhuma, na verdade nem deveria existir - com tamanha opacidade e distância de Moscou, mesmo que existissem ordens diretas. O artista da pá destrói a realidade ao falar de sua experiência como enfermeiro, que o faz aproximar daquela ajuda humana, se assemelhando com a arte. A pá, em outra ocasião, é o que assenta, a que barra o horror tão comum. Se a comida é o alimento básico, nestes campos ela se torna uma abundância de dignidade. Ultrapassa qualquer esquecimento, sendo ela o esquecimento de si e da vida. A dor corriqueira é variada, mata, destrói, impõe, sem se quer poder desviar dela. Chalámov ao sair vivo destes campos propôs um retorno ao terror. São contos tão reais que eles se permitem virar arte para nos causar espanto e vozes permanentes de combate ao monstro que nos tornamos a cada dia, ao que se propõe aniquilar quem já não pode mais morrer, o humano.

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    Varlam Tikhonovich Shalamov profile picture

    Varlam Tikhonovich Shalamov

    Foi um escritor, jornalista, poeta, dissidente político, prisioneiro político, e sobrevivente do Gulag russo. Shalamov passou dezoito anos preso nos campos de concentração soviéticos, cumprindo três condenações quase consecutivas por "atividades contrarrevolucionárias". Em 1956 foi reabilitado e retoma a sua atividade literária em Moscou. Em conjunto com a obra de Solzhenitsyn, a sua obra Relatos de Kolimá é um dos melhores retratos da vida nos campos de concentração soviéticos, principalmente na Sibéria, em condições desumanas, com temperaturas baixíssimas que, como relata, "era tão frio que não era possível pensar em nada". Nestes campos na entrada, em lugar visível havia inscrições com frases de Josef Stálin: "Honra e glória ao trabalho, exemplo de entrega e heroísmo". Mas para Varlam, o trabalho nessas condições "podia ser qualquer coisa, menos motivo de glória."

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    Varlam Tikhonovich Shalamov