"Cada médico é especializado em uma única doença, não em muitas. E todo o seu território é cheio de médicos; pois uns médicos são destinados às doenças dos olhos, outros às da cabeça, outros às dos dentes, outros às do ventre, outros às doenças desconhecidas."
O segundo livro das Histórias de Heródoto tem seu foco na história e geografia do Egito. Além de descrições minuciosas de templos, cidades, o próprio curso do rio Nilo e dados sobre a vegetação as paisagens, Heródoto conta (infelizmente nem sempre em ordem cronológica) a história dos faraós do Egito Antigo - que ele chama de "reis", em uma das muitas vezes que utiliza sua concepção de mundo grega para descrever as características de outros povos -, mitos egípcios e os vários momentos em que os caminhos de egípcios e gregos se cruzaram.
Deste belíssimo livro sai a famosa frase "o Egito é uma dádiva do rio" [Nilo], que escutamos durante as aulas de História do Ensino Médio. De fato, Heródoto dá grande importância ao Nilo no desenvolvimento egípcio - e algo interessantíssimo é a própria construção de frases quando ele se refere ao rio, tornando-o um "agente ativo", como se o rio fosse um ser vivo, dotado de vontade. Ele também tenta explicar, obviamente sem as bases científicas que temos hoje, as cheias do Nilo, importantíssimas para a agricultura.
As informações do livro são baseadas em relatos que o autor adquiriu com sacerdotes egípcios, e Heródoto não se exime de discorrer sobre várias versões dos mesmos episódios, deixando-nos com a responsabilidade de escolher qual é a mais fidedigna à realidade. Assim como o primeiro livro, mito e verdade se misturam diversas vezes durante o relato, e as notas de rodapé são fundamentais para fixarmos o "pé no chão" da realidade ao lermos, e termos certa dose de ceticismo com a narrativa.
O Livro II das Histórias é um belo registro do Egito Antigo, fundamental para quem tem interesse no tema. Mostra a proximidade entre esse povo e os gregos, algo que um leigo como eu não sabia da dimensão. A leitura, por vezes, pode ser maçante, principalmente nas descrições de templos ou de características geográficas da região, e a falta de cronologia da obra pode deixar o leitor confuso e/ou perdido - por isso, atenção é fundamental. No entanto, os relatos míticos (ou não) dos acontecimentos são a cereja do bolo da obra (pelo menos a meu ver), que a deixam interessantíssima de ler. O mito do faraó que queria saber quem eram os primeiros homens na Terra, e por isso prendeu duas crianças sozinhas em uma cabana, ou o mito dos dois irmãos que roubaram de um faraó, são histórias curtas que deixam o livro dinâmico e de agradável leitura.
Por fim, não poderia deixar de elogiar esta edição primorosa, que não seria exagero dizer que é o livro mais belo que já li. Além da beleza exterior, a tradução é perfeitamente compreensível, com infinitas notas de rodapé para ajudar até o mais leigo dos leitores. Edição absolutamente recomendada.