“Fragatas não pousam no mar” – Um livro de águas profundas
“Fragatas não pousam no mar” – Um livro de águas profundas Krishnamurti Góes dos Anjos Eis um romance de enredo simples. A história de Leonardo, um militar da Marinha de 45 anos, desencantado com a vida que remoendo dores, decepções e frustrações resolve isolar-se em uma ilha deserta e trabalhar como faroleiro. Uma trama simplória não é mesmo? Negativo. Nunca em toda a história da humanidade, em meio ao fulgor de tanto progresso tecnológico, a dor se revelou mais aguda e profunda; nunca foi maior o vácuo do espírito e nunca o desequilíbrio humano se nos mostrou tão feroz, ou por outra, tão desumano. Mas o que tem a humanidade com a história de um sujeito em uma ilha deserta? Em meio à agonia dilacerante da solidão (estado em que vive todo aquele que esteja em plena posse de sua consciência, uma das inúmeras parábolas do texto), a personagem constata que a “consciência é como massa de modelar”. Cumpre a cada um de nós dar-lhe forma. E é esta formatação que dará em última instância, os contornos do social. Óbvio. Mas não nos enganemos. As situações aflitivas apresentadas na obra, que nos lembram o absurdo Kafkiano, exigem de nós. São circunstâncias que desenham silhuetas cuja nitidez depende do grau de sensibilidade e imaginação do leitor, como diria o mestre Hélio Pólvora. O tratamento ficcional proporcionado pelo romancista ao fantástico, ou sobrenatural (como queiram), nunca é gratuito, mas contrabalançado convenientemente com as possibilidades do real. A técnica utilizada, admite uma variedade de focos narrativos, nos quais a dura realidade da extrema solidão, se transmuta em sonho colorido e deste ao pesadelo para que melhor se desnude a face encoberta pelos condicionamentos. “Há na verdade muitas realidades simultâneas, embora frequentemente se fique congelado em apenas uma delas, perdendo a noção da existência das outras”. (pag. 146). Subliminarmente o texto também nos faz refletir que o ser humano pode ser esmagado (e a vida do protagonista é um exemplo claro disto), sofrer deformações, passar de pessoa a objeto, regredir no seu trajeto quando sob o império do arbítrio ou submetido a pressões que o anulam até o aniquilamento. Após uma série de experiências dolorosas tanto no plano físico quanto no psíquico, afinal o protagonista olha com maior calma para dentro de si. A dor e a luta, essas plasmadoras de destinos, forjadoras de almas, apuram sua concepção dessa contingência a que chamamos vida, e o homem acaba por encontrar aquela análise crítica que, partindo da revolta se viabiliza na reflexão e produz transformação. Aí talvez resida o cerne desta ficção. Gostemos ou não, queiramos ou não, o fato inconteste é que enquanto continuarmos a ser o que somos e não soubermos realizar o esforço de superarmos a nós mesmos, a dor fará parte integrante de nossas vidas em gotejar ou torrentes quotidianas, conforme o ímpeto de nossa ignorância. Encontramo-nos em plena encruzilhada entre a fraternidade e a barbárie. Foi o que me ficou no espírito após a leitura. Muito bem. Marcio Ribeiro Leite cumpre assim seu papel de escritor de consciência atilada e rica imaginação a ampliar a realidade vulgar e nos mostra certas verdades essenciais. Cumpre a nós, enquanto leitores, desvendar como ele o fez. O prazer da descoberta é certo. Fragatas não pousam no mar. Marcio Leite, 207 pg. Chiado Editora, Lisboa, 2014.

