Mensagem através do oceano
Mensagem através do oceano Fecho o livro fino de capa preta e letras vermelhas que tenho em mãos. Levanto-me e vou à janela de onde posso mirar o azul intenso do oceano Atlântico. O pensamento voa por sobre as águas para longe... muito longe, a cerca de 1.500 km de Portugal, para o arquipélago de Açores onde vive a autora de O Baloiço vazio, Carla Lima, para dizer-lhe duas palavrinhas sobre sua obra. Antes porém, cabe aqui uma pequena tradução: o substantivo baloiço, falado em Portugal, corresponde na mesma língua falada no Brasil à balanço. Aquele brinquedo infantil no qual um pequeno assento suspenso por duas cordinhas oscila num movimento pendular. Interessante as variações linguísticas da nossa língua... e isso de língua me faz pensar que os países onde o português é o idioma oficial são como ilhas de um arquipélago. Separa-nos um mar de indiferença mútua. Triste... Mas vamos à obra. O livro de estreia de Carla Lima é estruturado em diálogos e monólogos interiores onde sobressai a ligeireza e espontaneidade de conversas inteligentes. Impressiona-nos por um pormenor levantado, uma observação, uma frase, uma definição de existencialidade. De maneira subliminar, mediante um sutil e complexo jogo de sugestões que requer a cumplicidade do leitor, e de uma variedade de focos narrativos, a história adensa-se e transborda de significados. O foco narrativo principal prende-se ao amor entre Ana e Bruno. Um amor ora vivido, ora imaginado. Há algo de perturbador nessa relação, na fixação doentia que Ana nutre pelo rapaz. E assim a autora vai moldando a narrativa em torno de subentendidos como se a cada diálogo, pulsasse toda uma existência. Exemplo. Quando a protagonista trava uma conversa áspera com o amado, irrompe seu pensamento íntimo onde observamos que linguagem e inventiva se completam de modo a obter determinado efeito: “ – O problema é meu vestido? – Claro que é o vestido. Ou achas que estou com ciúmes? Ciúmes de ti? Ninguém olha para ti. Por isso é que te vestes dessa maneira. Podes tentar mais não resulta. Eu calada. Uma lágrima a rolar-me pela face. A mesma face que já bateste. A mesma face que a minha mãe bateu. A mesma face que foi ferida numa queda em criança. Face com feridas de uma vida. Uma curta vida. A lágrima a desaparecer nos meus lábios. Eu a engoli-la. Uma lágrima de dor, uma lágrima de injustiça, uma lágrima de... – Vais mesmo sair assim? Eu a fechar a porta de casa com força. A porta a bater. Dói.” Este pequeno fragmento, para além de revelar uma relação conflituosa onde há flagrante desrespeito humano, assinala a violência com que nascemos, crescemos e morremos. Absolutamente sós. Mas não se pense em uma linearidade narrativa. Uma feliz singularidade do texto reside precisamente em que, auscultando a intimidade da personagem Ana, somos repentinamente empurrados para momentos pretéritos de modo a perquirir a formação de sua personalidade, sobretudo no que diz respeito ao seu sentir. Esta silhueta de circunstâncias postas habilmente pela autora – e cujo grau de nitidez depende, óbvio, da sensibilidade e imaginação de quem lê -, nos vai guiando para a constatação de que a protagonista afunda num sentimento de inutilidade e de vazio existencial, porque fecha-se entre as quatro paredes de que faz o seu sentir. Fica a roer o osso de uma existência frustrante. Esta a impressão maior que causou-me. De que modo isto ocorre? Quando o intimismo humano vai se formando majoritariamente e, quase que exclusivamente, de coisas miúdas. Poucos objetos bastam para o cenário e poucos elementos interiores são suficientes para evocar toda uma vida. O intimismo ambiental reproduz-se no intimismo psicológico e vice-versa: a autora pratica a introspecção e põe ainda, habilmente, ênfase em “anomalias” psicológicas. Intimismo e introspecção andam juntos na prosa de Carla Lima; no entanto, a sondagem do interior das personagens em lugar de escolher seres de exceção concentra-se nos episódios corriqueiros: dai, pensamos, o acerto do texto que se manifesta exatamente em surpreender no cotidiano rotineiro os grandes dramas anônimos e mudos da humanidade. No banal a autora transfunde a realidade existencial num quadro de beleza estética e ética. Aí o núcleo da ficção deste pequeno livro que afinal, parece nos transmitir com maior amplitude aquilo que Fernando Pessoa tão bem sintetizou: “Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades.” Que o oceano possa transmitir tais impressões... e meu olhar por sobre o mar deseja finalmente, que em breve tenhamos nova obra da autora, importada cá para o além-mar.

