Durante a segunda expedição de reconhecimento do H.M.S. Beagle, Charles Darwin, então um inexperiente naturalista, com um curso inacabado de Medicina e a promessa de uma formação religiosa no futuro, escreveu um diário relatando a viagem. Inicialmente planejada para durar dois anos, a viagem acabou estendendo-se para cinco anos e alguns poucos dias.
Talvez a história de como Darwin foi parar no Beagle seja tão interessante quanto as consequências geradas por ela. Como é que um jovem ocupa uma vaga em paralelo a um cargo já preenchido (pelo cirurgião Robert McCormack)? Como Stephen Jay Gould relata de modo fascinante em seu "Darwin e os Grandes Enigmas da Vida", o capitão Fitzroy convidou Darwin devido a temer uma tragédia: Fitzroy vinha de uma família com tendências hereditárias para loucura, e o estrito código naval impedia que o capitão dividisse espaço pessoal com pessoas de estirpe menor que a sua. Vem então Darwin, um nobre, com o pretexto de dividir a mesa de refeições com Fitzroy e evitar sua loucura.
Ver os relatos de Darwin é simplesmente enxergar um mundo que não existe mais. As cidades, florestas, desertos e povos descritos por Darwin desenvolveram-se ou foram aniquiladas, florestas foram derrubada, e os então "selvagens inarticulados" hoje pouco diferem do "homem civilizado". É fascinante ver a visão de Darwin contra a escravidão no Brasil, um país com fauna e flora tão admiráveis que foram parte de suas memórias até o fim de sua vida, aumentando ainda mais o contraste na visão do naturalista.
Também é possível ver vários momentos chave de sua formação e vida, como a passagem pelas Galápagos, um grave episódio de enfermidade que voltou a lhe assolar tardiamente e é alvo de especulações até hoje, e suas crescentes ponderações sobre o mundo natural, como o surgimento e manutenção de novas variedades no mundo vivo, e a formação dos atóis na geologia.
Desnecessário dizer, mas para aquele que pretende formar-se em Biologia, e não somente ter um canudo nas mãos, o livro é indispensável.
Recomendado.