O castigo que vem a cavalo
Ouvia muito essa frase quando criança. Seja bonzinho, ou o castigo virá a cavalo. O mágico de Lublin é a tradução literária do "Aqui se faz, aqui se paga". Uma vida levada levianamente, entregue à sensualidade, atendendo-se aos desejos carnais. Ambição desmedida, sonhos fúteis. Assim vivia o mágico de Lublin. Um bom homem, no fundo. Apenas fraco. Inteligente acima da média, durante a história vislumbra-se traços de sabedoria e questionamentos existenciais que nos assombram a quase todos. Que atirem a primeira pedra os puros. Todos nós, em alguma medida, agimos de forma contrária às nossas mais profundas crenças. Não somos capazes de agir conforme o que acreditamos. E, após o primeiro passo para fora do nosso ideal, abdicamos muitas vezes da busca pela correção, pela perfeição. Aparentemente, é isto o que ocorre com o nosso mágico protagonista, Yasha. Questiona não apenas sua própria existência, como também a existência de um Deus. Enquanto isso, esbanja tudo que ganha e se vê rodeado de amantes. E se vê sem possibilidade de se desvencilhar do beco sem saída em que entrou por conta própria, de livre e espontânea verdade. Contudo, o destino cuidou de dar andamento em seus planos e em seus problemas. E, neste ponto, há a grande mudança de rumos, bem inesperada, no livro. Não contarei o desfecho, obviamente, mas o final é surpreendentemente simples, mas ao mesmo tempo surpreendente. Como em vários outros grandes livros, há boas doses de filosofia e lições de vida subjacentes nesta obra. Mas é preciso ter olhos curiosos e sedentos de sabedoria para enxerga e saborear.

