Lá vou eu, de novo, na minha biga, rumo ao ab absurdo
“Ab absurdo” (Patuá, 2016), segundo livro do poeta José Luis Queiroz, é uma obra que prima pela qualidade, tanto na forma como no tratamento dos temas. Do seu primeiro livro, “O Cortejo” (Patuá, 2013), restam ainda sombras de uma melancolia fluida, lívida, escancarada por trás de rimas e ritmos que leva o leitor a um embalo transparente e seguro. É como se tudo estivesse ruim, tudo, mas como se a poesia salvasse a situação. Curioso, nisso, é que, diferente dos seus contemporâneos, Queiroz performatiza no seu eu-lírico uma voz que não se entrega à metaposia. Ou, o que seria impressionante, tudo nele é metapoesia. E lá vai o poeta em sua biga, no poema que dá título ao livro, o primeiro. Um grande impacto, no início, depois a fluidez das palavras. Na repetição “e lá vou eu, de novo...” (a cada momento muda o meio de transporte – carruagem, patinetes etc) é um enroscamento muito bem rimado que espera de novo a repetição: com que ele vai desta vez? O livro, que tem 104 páginas, exibe, na forma, um pouco de tudo: soneto, redondillha, verso livre, aforismo. Tem, no tema, o fim ao longe, como ocorre em “O cortejo”, que é um grupo de pessoas que não chegam nunca. Aqui, tudo é motivo para um olhar poético, não importa a imensidão ou a pequenez de cada coisa. Mas o olhar melancólico do poeta envolve o leitor com uma precisão composicional tornando a leitura quase agônica: eu quero chegar ao fim do livro, mas o livro não deixa. Disso tudo, o que se depreende é que o poeta José Luis Queiroz é um exímio poeta da contemporaneidade. Suas cicatrizes são pós-modernas, e ele as exibe num desfile infinito. Ao fim da obra, surge o impulso de uma nova leitura e de novas descobertas. “AB ABSURDO Lá vou eu, de novo, com a minha carruagem. Lá vou eu, de novo, com a minha caravela! Minha espaçonave, minha pouca bagagem, meu rumo torto, a fortaleza sem sentinela. Adeus, sisudo amigo, ao qual me oponho: não pela realidade que de ti emana, não pela crueldade do que resta do sonho; mas sim pelo cronograma, que nos engana com o divã e o devir, esse fruto inconho. Cansado e sem pedra, estou agonizante, na via-crúcis atirado, como canino dejeto; Tudo aqui exala o odor da lei de antes. Vejo me queimarem como bruxo insurrecto! Lá vou eu, de novo, com as minhas bigas! Lá vou eu, de novo, movido a vapor Com meu bólido de estranhas cantigas, minha eterna palavra sem vigor. Adeus, circunspecto amigo: que ri! dos delírios que me vestem de jogral das facetas da mentalidade zumbi da frouxa catapulta que atira o meu punhal! Exausto, definho, acreditando no mundo. Em minha mente Conscientia fraudis lateja! Dissimulo em frente ao espelho, moribundo, e das abnegadas hienas eu tenho inveja. Lá vou eu, de novo, com os meus patinetes! Lá vou eu, de novo, com a minha galera Minha cortina apeada, minhas marionetes, a chave do meu planeta sem atmosfera Adeus, sorumbático amigo, ser ocioso! Não pela vã labuta que nos desanima Não pela hierarquia, esse dote vicioso, mas sim pelo cotidiano dos hotéis sem estrelas e pela glosa divina de um deus criterioso! Fatigado, vejo o meu depauperamento: Físico, engordo – Mental, eu emagreço! É tísico o meandro desse agônico momento Esvai-se o oxigênio – Eu não mereço! Lá vou eu, de novo, como meu bonde Lá vou eu, de novo, com a minha liteira Com a minha sequoia, sem raiz ou fronde que nunca dá sombra, frutos, madeira .... Adeus, macambúzio amigo, ao qual inquiro: - Será inocente a pretensão de raciocínio? O que para alguns sugere dentada de vampiro, para outros é nada mais que rotineiro latrocínio. Abatido, uma nova ordem aqui instauro: “Devo ir na máquina do tempo, à Da Vinci, e compreender porque voava o pterossauro e esse homem não ergue voo com igual requinte.” Lá vou eu, de novo, com o meu jirinquixá Lá vou eu, de novo, com meu carro de boi Rudimentares rodas rangem um doce ré-mi-fá: - Meu pai foi rei – Foi! – Não foi! Foi! – Não Foi”

