Morrerá em cada esquina do teu corpo uma pessoa só -

    Cris Estevão

    Benfazeja
    2016
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9788569577072
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos10/07/2016Resenhou um livro
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    Uma poética boêmia

    Uma poética boêmia Por Krishnamurti Góes dos Anjos Quem acompanha a poesia brasileira contemporânea certamente sente algum estranhamento provocado pelo poema irregular – muito em voga -, de difícil apreensão, por vezes hermético. Aqui e ali surge uma multiplicidade informe de vozes. Poemas curtos e ásperos, peças que se afiguram como verdadeiras 'notas' ou 'esboços' que flertam com a improvisação em detrimento de um olhar poético mais elaborado. Em meio a esse cenário nebuloso de abundante produção, não podemos deixar de reconhecer por outro lado, que a expressão poética depois de incorporar tantas e tão variadas formas de expressão, não se limita mais à mera reprodução do real de forma absoluta, e cada vez menos os novos poetas deixam de se filiar a cânones eleitos e celebrados. Uma dificuldade a mais para os grupinhos, panelinhas e 'imprensa cultural' de nosso acanhado meio intelectual. Isto de acanhado, nos faz lembar de nosso tresloucado país que ainda possuindo altos índices de analfabetismo, e toda sorte de vergonhas internas, banca bilhões e bilhões de reais para fazer festa olímpica mundial. Ops! Voltemos à poesia… Alguém já afirmou – se não me falha a memória foi Antônio Cícero -, que o real fragmentado, tem levado a uma relativização em todas as formas tradicionais de poesia, e o poeta e professor Marcos Siscar, por sua vez, acrescenta que “alguma coisa está em processo de transformação e demanda ser compreendida, antes mesmo que se possa decidir o que lhe falta”, ou o que a enquadra, dizemos nós. De todo modo - e isto nos parece ser um vislumbre mais imediato -, a poesia contemporânea carrega a dramatização de uma angústia de sentido de nossas existências conturbadas. Muito bem; a Editora Benfazeja está a publicar “Morrerá em cada esquina do teu corpo uma só pessoa”, livro de estreia da autora Cris Estevão. O poema que abre o volume, “Tudo que é mórbido se desmancha no bar”, é uma irreverente crítica aos cânones eleitos e celebrados, senão vejamos: “Aos poetinhas, cheios de conceitos, preceitos e benfeitos Frases feitas, direitos de autoria Aos poetinhas cheios de manias, maniazinhas, que gozam ao empurrar pose e cia tela abaixo. A todos os chatos de galocha, salvo a mim e aos meus amigos guardanapeiros de lar pelo conduto do bar, desejo de toda alma à imortalidade falocêntrica das velhas cadeiras apreciadeiras de forma, fama, estrutura e politicagem.” A autora carrega no poema mais uma estrofe que, somada a transcrita nos remete de certa forma, àquele pensamento de Mário de Andrade: “A impulsão poética é livre, independe de nós, independe de nossa inteligência. Pode nascer de uma réstia de cebola como de um amor perdido”, ou ainda, acompanhando os versos finais do poema citado: “Prefiro a efemeridade do poema feito no bar” … “Poemeto de guardanapo é o que limpa a boca de toda a amargura da vida”. Cris Estevão segue apresentando-nos sua mundividência sob variados ângulos. No poema “Segunda” parece exibir a lucidez fraturada entre as sobras da vida. Em “Dez culpas”, abre um leque de sentidos ambíguos entre as palavras culpa x desculpa, e em “Desabafo” expõe o desassossego em relação ao fazer poético enquanto contradição entre a realidade e seu registro lírico: “A ligeireza da palavra não cabe no papel. Nem os sonhos, nem as vontades, nem os medos. Desejos não ardem com a mesma verdade se registro em linha reta”. A expressão 'linha reta' nos remete ao conflito essência X aparência que figura em, pelo menos, três poemas, um dos quais é: “Andar na linha”: “Certa que a tortura do traço é o caminho reto, destino um alvo de setas a dentro. Entre o escuro, Claro!” Finalmente, cabe a paráfrase ao pensamento de Ferreira Gullar: Em muitos versos desse livro de Cris Estevão a atualidade do atual aflora e nos convida a sentir a poesia, em um dos seus aspectos mais importantes: o de comover o leitor. Convenhamos, já é bastante. Livro: Morrerá em cada esquina do teu corpo uma só pessoa. Cris Estevão – Editora Benfazeja, São Paulo, 2016, 64 p.

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