Um dos lugares-comuns que mais me agrada quando tentamos definir como a poesia funciona é aquele em que se diz que para se aventurar neste gênero é preciso sentir algo ao ler os versos que estão na nossa frente. E é verdade. Apesar disso, para mim a poesia é, sobretudo, identificação.
Este é o segundo livro da Wislawa Szymborska que leio. Diferentemente de Poemas, antologia que traz na capa a maravilhosa foto em que ela está mais velha e fumando, além de ter a lombada e os detalhes em tom vermelho, este Um amor feliz me pareceu uma seleção mais ampla da potência da voz desta gigante polonesa - e olha que a minha infiel memória guarda melhores impressões do nosso primeiro encontro.
Em Um amor feliz, os leitores podem acompanhar com clareza as mudanças de temas e interesses da poetisa. Meus poemas preferidos ficam, em sua grande maioria, na parte final do livro, mas nada impede que algumas preciosidades tenham chamado minha atenção durante o percurso. É o caso do magnífico Nada duas vezes, que aborda com uma simplicidade invejável o absurdo da finitude, e dos irônicos Atlântida, em que o eu lírico brinca com o mistério da famosa ilha perdida, e Concurso de beleza masculina, em que o jogo de palavras dispostos nos versos satirizam uma masculinidade que preza pela virilidade. Aliás, a ironia é uma aliada recorrente na criação dos versos da autora, como mostram os divertidos Riso, onde há uma conversa imaginária entre as versões jovem e madura de uma mesma Wislawa, e do poema homônimo que dá nome à coletânea, onde a poetisa questiona a utilidade de um amor feliz num mundo tão imperfeito. Para não me estender ainda mais, destaco também os políticos Campo da fome em Jaslo, Sorrisos e O ódio, mostrando que poetas não estão livres do fardo da consciência social, como muitos imaginam.
Laureada com o Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska é uma poetisa completa. Ela compreende com uma beleza imensurável o mundo dos detalhes tão bem quanto compreende o mundo superficial que nos abriga. Seu olhar pode escolher um besouro, uma planta ou objetos inanimados e deles extrair o mais inimaginável resultado. É a arte dos versos.
Algo que chamou a minha atenção foi a já mencionada preferência pelos poemas mais novos da autora numa seleção que compreende livros produzidos de 1957 a 2012. Aqui, quero citar aqueles que estão entre os meus preferidos e que valeram a minha leitura do livro por serem mais acessíveis e menos herméticos ou abstratos. Para os mais curiosos, cabe também uma rápida degustação através de uma pesquisa na internet. São eles: Cálculo elegíaco, Grande sorte, O silêncio das plantas, O primeiro amor, Ausência, ABC, O velho professor, Desatenção, Aqui, Vida difícil com a memória, Divórcio, Metafísica, Tem aqueles que e Para o meu próprio poema.
Vale ressaltar que a edição bilíngue da Companhia das Letras traz ainda o discurso dela ao ganhar o prêmio Nobel, que é um deleite para qualquer um que aprecie literatura e finaliza o livro com uma sensação de esperança que somente a sensibilidade de uma mulher extraordinária poderia ter. Nele, Wislawa reflete sobre a importância do não saber para os poetas. É uma decisão acertadíssima da editora pois, como iremos concluir com a autora, o que seria do mundo sem os poetas das incertezas?