Para quem deseja sentir o teor do livro antes de o ler, recomendo dois poemas: "Corridinho" e "Moça na sua cama".
Adélia apareceu com "Bagagem" em 1976. Mineira interiorana, quarentona, casada e mãe de cinco filhos, ela surpreendeu logo de cara principalmente por duas características: a forma natural como trata a sexualidade e o seu catolicismo.
Ela foi uma erupção que renovou totalmente a poesia brasileira com um precioso balance entre juventude e maturidade, pudor e despudor, afronta e reverência, numa voz muito própria. Esse influxo ressoou nos seus seguintes livros: Coração Disparado e Terra de Santa Cruz, que com o primeiro formam a sua "santíssima trindade".
Neles permanece o mesmo ar de confidência íntima e familiar, de reflexão sobre o cotidiano e resgate de memorias que passa ao leitor a sensação de estar ouvindo "causos" ao mesmo tempo em que medita sobre aqueles velhos temas humanos, como a morte, a fé e o sentido do existir.