Gotas no Asfalto, romance de estreia de Vlademir Lazo, é um relato algo poético, algo desiludido, sobre a relação de duas pessoas que de tão sozinhas e tão errantes, acabam por encontrarem num curto espaço de tempo um confortante reflexo momentâneo entre si. Julio e Alice, a princípio tão diferentes, aos poucos se revelam o que parece ser um mesmo personagem dividido em dois, sendo suas variações ancoradas nas diferenças naturais entre o sexo masculino e feminino. Se por vezes eles parecem perceber isso, os pontos em comum mais os assustam e distanciam do que os une, como seria de se esperar.
A inércia parece ser a maior constante narrativa, e quanto mais descobrimos sobre o casal central, mais se reforça a sensação de que eles estão presos num destino de inevitável estagnação. O ponto forte na na narrativa é a forma como informações, reminiscências, divagações e diálogos aparentemente banais e cotidianos aos poucos formam um mosaico que nos permite a entender a fundo os dois indivíduos, ainda que que exista um mistério, um lado jamais alcançado pelas palavras, que oferece complexidade a eles.
Quem se mostra um contraponto e uma nova perspectiva nessa relação é Camila, uma personagem periférica porém bastante influente. Ex-namorada de Julio, ela representa a redenção, a saída, a chance perdida do protagonista de se endireitar e levar uma vida mais comum de família, emprego fixo e filhos. Camila sobrevive das lembranças de Julio e Alice, jamais tem autonomia própria, de modo que sua verdadeira personalidade permanece sempre uma incógnita na equação, embora pareça a princípio bastante unidimensional ou talvez apenas desimportante a ponto de merecer maiores considerações. Seu "fantasma" aparece pontualmente vez por outra em lembranças como alguém ideal, perfeito, e inevitavelmente deslocada na vida errante de Julio, ainda que de alguma forma prevalecente na memória e coração dele.
O título do livro parece indicar efemeridade, finitude, insignificância ou pequenez. É óbvio desde o começo que, assim como perdeu Camila, Julio perderá Alice e voltará ao seu ponto de partida, perdido num ciclo sem fim de uma existência que não se justifica de forma alguma. A ciência do personagem em relação a isso o torna bastante cínico, por vezes amargo, por outras apenas triste. O background de obras literárias, filmes e música reforçam essa ideia sobre o personagem que o autor procura imprimir e o que prejudica a fluidez narrativa é a linguagem por vezes rebuscada demais, verborrágica demais, empregada em alguns trechos para a descrição de passagens muito simples para requererem tal malabarismo com as palavras. Não se trata de um erro incomum em escritores iniciantes, nem tampouco compromete a qualidade geral da obra, que em seus melhores momentos provoca reflexões e deixa um incômodo sentimento de vazio existencial, como os melhores livros do tipo costumam fazer, o que já é o suficiente para esperar ansiosamente pelo próximo trabalho do autor.