Filha: Esta cena é muito teatral. É como uma peça com uma tarefa. Somos como dois personagens que têm que cumprir uma tarefa: levar um colchão por cinco quarteirões. Como uma espécie de épica do mínimo. Uma peça que mistura a ficção e a vida, o cotidiano e o abstrato. E além disso o colchão é muito simbólico. É um multiplicador de sentidos. Tem muita iridescência. Agora é como um telhado que nos protege e nos une. Estamos como num espaço imaginário no qual podemos construir uma realidade diferente. Sustentamos o colchão e o colchão nos sustenta. Porque o colchão pode se tornar qualquer coisa. Pode ser o universo se a gente quiser. O teatro tem isso. Tudo se torna presente. Tudo ganha corpo. As coisas se tornam muito concretas e simbólicas ao mesmo tempo. O colchão pode ser um barco à deriva, no meio de um mar muito agitado. Pai: Um colchão é um colchão.

