Começo a resenha com um trecho entusiasmado de uma canção de Cazuza que diz muito deste livro. Não me conectei de imediato, acabei deixando o livro para um outro momento.
A facilidade de saber para onde vão os contos, qual caminho irão tomar, no começo afugenta um pouco o leitor desavisado. Acabou por me fazer o livro descansar. Deixei-o ali na estante, parado, esperando oportunidade que se encaixasse no meu momento, que estivesse na mesma vibração que a minha. Minha decisão se mostrou correta. Este dia chegou e os contos continuaram previsíveis e, talvez por isso mesmo, angustiantes. É como um filme do Hitchcock, você sabe o que vai acontecer, mas não consegue se esquivar do inevitável.
Contos amargos (Pendragon, 90 páginas) me chamou a atenção pelo título e pela capa. Mas não só por isso, mas também porque entre os autores havia a querida Alessandra Morales, além de Allana Machado, que foi com quem mais me identifiquei, Bruno Catão e Paulo Vitor Mendonça. Turma da pesada querendo fazer barulho.
O cardápio aqui é indigesto, doenças físicas e psíquicas num grande caldeirão: mágoa, medo, violência, depressão, perda de fé, câncer, morte.
"A verdade é que não sei ser mais nada, é por isso que preciso sair quando é escuro. Mas quando estou só comigo eu sei ser. Sei ser princesa, sei ser arqueira, exploradora e sei ser virgem. Sei gostar de incenso e dançar nua sem a obrigação de seduzir."
O mal do século XXI é personagem central e nos é apresentado em toda sua majestosa figura. Não há necessidade de ter convivido com alguém que sofre desta doença (hoje em dia é difícil não conhecer alguém assim), basta beber um pouco de cada palavra do conto para notar o buraco escuro e sem fundo em que o indivíduo se meteu. A chance é mínima de encontrar uma saída.
"Eu não me sentia triste, apenas não me sentia feliz, a vida seguia sempre a mesma. Só as brigas em casa aumentavam, eu não aguentava mais meus pais se metendo em tudo, não me deixando em paz. Eles discutiam comigo dizendo que eu não me movia, não fazia nada, que eu era preguiçoso. E eu sabia do que eles falavam, mas apesar de ter energia, eu não tinha vontade. Um dia retruquei que não entendia o motivo de eles fazerem as coisas, não entendia o amor da minha mãe por um monte de mato. Ela me estapeou."
O desespero é tamanho que personagens e mais personagens questionam a fé. Por que lutar se no final das contas já nascemos derrotados diante de inimigos poderosos tais como os que se encontram escondidos dentro de nossas próprias células?
"Sádicos. Amando o sofrimento sincero de quem esteve com ela; especialmente o da minha mãe, que assistiu minha avó se acabar enquanto morria para si mesma, para cuidar para que vovó não morresse. O corpo da velha dona Vanda estava se multiplicando por dentro para destruí-la. Em dezembro a barriga doeu, em julho a barriga a matou."
Somos o início, o caminho e o fim de nós mesmos. Não há como fugir disso. Mas será que nos cabe acelerar este processo para fugir da dor?
"Então essa é a cara da morte, ela observou. Parecia mais bonita que há dois meses, parecia muito mais radiante do que há uma hora. Agora ela via cores no espelho. Cores e um quase sorriso ou qualquer outra coisa que a fazia sentir-se muito melhor. Suicídio. Até a palavra soava bonita. Eu sou a cara da minha morte."
E se finais felizes não existissem? E se tivéssemos doses cavalares de realidade? O leitor é um ser estranho, pois quando o livro retrata uma verdade “fictícia” ele se esbalda, lê, indica para os amigos. Bastou espelhar a realidade a coisa muda de figura, ele teme, engasga-se e tende a se afastar.