Leitura 38 de 2021
o remorso de baltazar serapião [2006]
Valter Hugo Mãe (Angola/Portugal, 1971-)
Editora 34, 2010, 200 p.
Este 2º romance de V. H. Mãe, vencedor do Prêmio J. Saramago em 2007, foi por muito tempo meu livro menos favorito do autor. A releitura para o projeto Herdeiros e a conversa realizada no último sábado de maio, no entanto, me ajudaram a fazer as pazes com a obra. O livro é brutal, indigesto, sufocante e perturbador: na tentativa (levada a bom termo) de erguer um monumento à solidão do ser humano, Mãe construiu um romance em que linguagem, tempo, atmosfera, foco narrativo e enredo confluem para discutir a atualidade da relação entre violência feminicida e patriarcado.
Como um descendente direto de Bento Santiago, Baltazar Serapião, vulgo Sarga, casa-se muito jovem com Ermesinda, a moça mais bonita do feudo onde (sobre)vivem e muito trabalham um grupo de camponeses (entre eles, os Sargas, nascidos de vaca) sob o domínio de um certo D. Afonso. Contaminado pela visão de mundo que legitima o domínio físico da mulher pelo homem, e a superioridade intelectual/espiritual deste sobre aquela, Baltazar acredita-se traído pela esposa e, seguindo os passos de seu pai e dos homens que vieram antes e virão depois de si, faz com as próprias mãos as mais atrozes correções em Ermesinda.
A violência retratada sem filtros e a certeza da impunidade do algoz são fatores que muito provavelmente farão leitores mais sensíveis desistir do romance. É importante notar, todavia, que a estrutura machista que legisla, controla e pune corpos femininos retratada ali se estende até nossos dias, com requintes quase idênticos de crueldade. Ao fim e ao cabo, Baltazar vê as mulheres apenas como estúpidas submissas ou putas/bruxas. Uma visão de mundo que o cega para a própria realidade e para o que efetivamente poderia haver de humano dentro dele. Por isso mesmo, o remorso a que alude o título não virá da violência contra a mulher, mas do estado final do protagonista (que acaba sem irmão, sem amigo e sem esposaem completa solidão). O livro denuncia, citando a colega Sally Rosalin, o quanto somos anacrônicos por ainda estarmos vivendo em meio a tantas atrocidades.