Ambiguidade moral. Esse é o tema que permeia do início ao fim a estória de Enclausurado, divertido romance (ou seria novela?) do inglês Ian McEwan. Possivelmente um autor que integra o rol dos escritores contemporâneos que já são clássicos, McEwan faz aqui um exercício de leveza filosófica, algo que já apareceu, por exemplo, no Brás Cubas de Machado de Assis. Sim, é um livro de muitos ecos e intertextualidade, com destaque para o Hamlet do nobilíssimo conterrâneo do autor, William Shakespeare.
A premissa não poderia ser mais ficcional: um bebê, enclausurado na barriga da mãe, profundo conhecedor de vinhos, começa a destilar opiniões sobre a situação global e sobre o crime que sua mãe e seu tio - respectivamente Trudy e Claude, ou, caso você tenha mais leituras do que eu, entenda claramente como a Gertrude e o Claudius da peça de Shakespeare - estão prestes a realizar. Debochado, cínico, provocador. Não é fácil enumerar as qualidades narrativas do McEwan neste livro. Importante destacar que aqui não há profundidade em grandes temas, apenas um escritor em pleno domínio narrativo mostrando suas opiniões, querendo que você, leitor, reflita à vontade com elas.
Ao optar por ter um narrador que é um ser que ainda não é, McEwan abre um leque de possibilidades infinitas. Mais uma vez cito Machado de Assis. Se em Memórias póstumas de Brás Cubas o narrador é aquele que já foi, McEwan volta atrás e vira a perspectiva ao contrário, sem deixar de possuir a mesma liberdade da personagem do Bruxo do Cosme Velho.
Com um previsível e acertado final, Enclausurado é uma leitura válida, uma espécie de passatempo intelectual. Moderno e ágil, é um livro que dialoga com a sua época e que vale o tempo de quem deseja algo mais leve no cardápio cotidiano.