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    O Tempo Redescoberto (Em Busca do Tempo Perdido #7) -

    Marcel Proust

    Biblioteca Azul
    2013
    382 páginas
    12h 44m
    ISBN-10: B00E8L6RYU
    Português Brasileiro
    4.6
    165 avaliações
    Leram288Lendo23Querem759Relendo2Abandonos4Resenhas14
    Favoritos2Desejados759Avaliaram165

    O Tempo redescoberto, com tradução de Lúcia Miguel Pereira, é o último volume da obra Em busca do tempo perdido, um dos maiores clássicos da literatura mundial. E sendo o último é também o primeiro, o que, à primeira vista, pode parecer estranho. Mas é neste volume que o leitor entenderá perfeitamente quais foram as ideias que nortearam o narrador desde o primeiro volume, No caminho de Swann. É na segunda parte de O tempo redescoberto que tudo se revela, num ritmo narrativo apaixonante. O romance foi originalmente dividido em três partes (seguindo edição de 1927 usada pela tradutora Lúcia Miguel Pereira e atualizada para a presente edição com base no texto de 1989). Na primeira, Tansoville, Proust retoma a narração de A fugitiva. O herói se encontra na mansão de Robert e Gilberte Saint-Loup, onde, em seu quarto de hóspede, projeta nas paredes suas reminiscências, como a lembrança do campanário de Combray e a sua relação com Albertine. No convívio da casa, também entra no tema da “inversão”, como a de seu amigo Robert, que tinha amantes para disfarçar sua relação com o violinista Morel. Esses elementos serão retomados ao longo do romance, principalmente na segunda parte, em O Sr. Charlus durante a guerra; suas opiniões, seus divertimentos. Entre as dúvidas pessoais mais profundas do narrador está a dos seus “dons literários”. Diante do enxame de lembranças, ele se pega pensando na sua própria falta de talento em poder fixar todos os seus pensamentos numa obra literária. Tema que será tratado, e revelado, na última parte do livro. Antes, porém, ele ainda explora a figura de Charlus, tio de Robert, um velho e alquebrado homem, cujos desejos intensos o levam a frequentar uma espécie de “inferninho”, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A velha nobreza e sua perversão sexual mais uma vez é tratada, mas aqui num dos momentos críticos da vida europeia. No tecido que sua narrativa arma, todos os tempos parecem se encontrar – o íntimo e o histórico –, ou como ele diz, ao perceber as relações entre situações dispersas na memória, “as lançadeiras ágeis do tempo tecem fios entre as lembranças que nos parecem a princípio mais independentes”. São essas lançadeiras que ele irá perceber, em pleno funcionamento, na bela última parte do romance, A recepção da princesa de Guermantes. No caminho da recepção, enquanto remói suas possibilidades literárias, ele tropeça nas pedras irregulares do calçamento. Esse simples tropeção será um momento de alta epifania. É como se a sua máquina do mundo, enfim, se abrisse: o tropeção despertara sua memória, como a madeleine no chá, lançando-o no sistema sanguíneo do tempo. Como essa, outras situações tiveram a mesma função. Já na sala de espera dos Guermantes, um tilintar de colher o colocou novamente diante do passado. Era, como ele diz, “um pouco de tempo em estado puro”. É desta série de memórias involuntárias, de prazer intenso e de alta revelação, que nasce o projeto de Em busca do tempo perdido. É quando o narrador percebe como fixar a riqueza de sua própria experiência, num caminho que entranha o ser íntimo com o mundo exterior. Essas são, sem dúvida, as mais belas páginas da literatura universal. “Compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada; que tudo me viera nos divertimentos frívolos, na indolência, na ternura, na dor, e eu acumulara como a semente os alimentos de que se nutrirá a planta, sem adivinhar-lhe o destino, nem a sobrevivência”. E é esta planta, com suas mil nervuras, que o leitor encontrou ao longo do conjunto de Em busca do tempo perdido. Esta nova edição, inteiramente revista e anotada, traz ainda prefácio e resumo de Guilherme Ignácio da Silva, posfácio de Bernard Brun e um belo ensaio da professora da PUC de São Paulo e crítica literária Leda Tenório da Motta. *Texto escrito pot Heitor Ferraz, jornalista, professor e poeta.

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    Letícia Santos picture
    Letícia Santos16/12/2011Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Os verdadeiros paraísos são os que perdemos...

    Em Busca do Tempo Perdido é a história de uma verdadeira busca espiritual que deu certo. Busca que o volúvel e preguiçoso Marcel perde a esperança de empreender, desacredidando no seu talento para a literatura, envolvido demais com o mundanismo e suas belas meninas em flor. O tema do livro não é a memória, voluntária ou involuntária, como pode parecer no começo da leitura. A memória é apenas um meio limitado de ressituar-se no Tempo, encontrar-se nele. A descoberta da vocação literária do herói, e tudo que culmina na descoberta desta vocação e faz parte do aprendizado dele, é o tema principal. O livro termina quando ele começa a escrevê-lo: aquele tempo aparentemente perdido, aqueles dias banais, se tornam uma das mais magníficas obras da literatura. Porque Marcel vai compreender que a verdadeira genialidade do artista não está no tema, mas na forma, sua expressão estética. A memória na obra adquire uma função maior que a simples rememoração, ela se torna um instrumento de aprendizado para inteligência, e possibilita ultrapassar os limites das impressões momentâneas, que estão sempre a mercê do eu em seu estado atual, construindo assim uma análise extratemporal, com um significado mais amplo, mais completo. A famosa madeleine molhada no chá é só a primeira dessas manifestações de memória involuntária que farão o narrador pressentir uma realidade, uma verdade, para além da realidade cotidiana. Os hábitos entorpecem a sensibilidade necessária para debruçarmos sobre essas vislumbres de uma outra vida. A madeleine não tem nada de extraordinário em si, ela é um signo, que encerra o significado dessa sensação que traz tanta alegria a Marcel porque ela remete a um tempo que não é o passado, mas que se situa fora do Tempo e está diretamente ligada à eternidade: a comunicação com um eu adormecido. Quando a inteligência e a razão se descuidam, podemos visualizar de relance, preso a qualquer objeto, sabor ou cheiro, uma dessas visões de sonho que conversam diretamente com nosso espírito, que nossa inteligência não consegue compreender. A arte, a contemplação do prazer que ela causa, é o que Marcel acredita ser o caminho para esse encontro com um sentido verdadeiro da vida. Porque uma obra de arte se comunica diretamente com o esse mundo de sonho e beleza, não podemos apreciá-la com a razão, e um artista não é necessariamente alguém mais culto ou inteligente, mas um Elstir, homem de valor intelectual admirável, que se torna ignorante para pintar, se desliga de todas as noções da inteligência e cria visões de mundos ideais, onde o céu se liga com o mar, não porque realmente devesse ser assim, mas porque é assim que enxergamos, mas o hábito, a razão, a vida, nos ensina que é só uma ilusão, impedindo a apreciação de uma beleza que não é dos fatos, mas dos significados. Todo esse aprendizado, que transforma o narrador em autor, é feito através de grandes expectativas, imensas decepções, muita dor e um pouco daquela alegria que aprendemos a sentir quando descobrimos que a felicidade não provém dos outros ou das coisas, mas de nós mesmos. Percorrer as páginas desse romance é como ouvir uma melodia pela primeira vez, a Sonata de Vinteuil - tão fictícia e linda que dá saudades de ouvir uma música que nunca existiu -, onde no primeiro momento, sem a memória, não pode ser apreciada em toda a sua profundidade, mas que à medida que ela retoma aos seus próprios temas, nossa inteligência apreende a beleza que nosso espírito sempre intuiu haver nela. É por isso, detendo a posse dessa revelação, que terminamos a obra com uma imensa vontade de relê-la, para somar impressões mais completas com nossa leitura retrospectiva. O confronto da pessoa do artista com sua criação, o fazer artístico, o aprendizado dos signos da arte, podem ser traduzidos num personagem, a de sua musa Albertine: a figura oscilante e atrevida à beira mar, que irá se destacar aos poucos do grupinho de meninas que tanto perturba Marcel e cuja visão no litoral é digna de ser pintada por um Elstir. A jovem bacante surgida no dique de Balbec irá oferecer muitos aspectos para a interpretação do ciumento Marcel, tal qual o campanário de Martinville, outra impressão importante que o narrador tem e que com ela se repete a sensação tida com a madeleine. Além disso, o próprio nome dos lugares e dos seres irão interessar muito o narrador, devido à sua deficiência em conter os significados e expectativas que depomos neles, e também pelo face diferente que um mesmo nome nos apresenta no decorrer da vida. Nenhum ser, nenhum objeto ou uma história é um todo, completamente constituído. Colocamos muito de nós em tudo, e também no livro. Proust escreve com essa consciência de ser um intérprete de nós mesmos. Portanto, Em Busca do Tempo Perdido pode ter um horizonte infinito de leitura, a limitação só é determinada pela maturidade ou experiência do leitor. É uma longa leitura, mas não é difícil. O texto é rebuscado, num sentido mais de forma que de vocabulário. As longas frases e intermináveis parágrafos são famosos, e extremamente belos. Não é uma história de fatos, mas de experiências, portanto nada tem pressa de acontecer e a maneira como acontece ganha um significado imenso. E também é um retrato divertidíssimo da época, das pessoas e do próprio Marcel. É, Proust é muito engraçado. Através do riso, ele consegue o distanciamento necessário para falar de questões controversas, e mesmo que alguns achem que ele não é satisfatório como autor da causa homossexual, em minha opinião ele é visionário! Ele não é condescendente com ninguém, suas preferências e opiniões pessoais não comprometem a estética do romance. É um artista perfeito. A arte é mais precisa que a ciência e a literatura é mais completa que a vida. clorofilarosa.blogspot.com.br

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