Roberto Civita (1936-2013) era o dono da banca. No auge, seu império editorial — a Abril — teve 10 mil funcionários e mais de trezentos títulos. Workaholic, curioso, grande formador de talentos, homem de convicções fortes mas avesso a confrontos, Civita redefiniu o jornalismo no Brasil ao criar publicações como Veja e Realidade — e por influenciar os rumos do país e da sociedade por meio desses veículos. Das origens familiares na burguesia italiana à crise da mídia impressa no início do século XXI, Carlos Maranhão reconstitui, com elegância, isenção e rigor na apuração, os acertos e os fracassos dessa figura tão fundamental quanto polêmica na história da mídia brasileira.
Roberto Civita: O Dono Da Banca - A Vida e as Ideias do Editor da Veja e da Abril
Carlos Maranhão
Á sombra da árvore
A história da imprensa no Brasil é basicamente uma história de famílias. O grupo Folha é sinônimos dos Frias; a Globo,. dos Marinho; o Estado, dos Mesquita; Bandeirantes, dos Saad. Não poderia ser diferente no caso da Abril, editora responsável pelas revistas de maior circulação no país. A leitura de “Roberto Civita- O Dono da banca” (Companhia das Letras, 2016) deixa claro : Os Civita são a Abril e vice versa. O livro inicialmente nasceu de um projeto de memórias de RC, como era chamado Roberto. Carlos Maranhão, veterano jornalista com marcante passagem pelo grupo Abril, especialmente comandando a Veja São Paulo, foi escolhido como ghost writer para levar à frente a empreitada, através de sessões semanais de entrevistas com o personagem. A morte de Civita, em maio de 2013, interrompeu a tarefa. Dois anos depois, Maranhão procurou os herdeiros com a proposta de aproveitar o material até então coletado para um novo projeto, uma biografia de Roberto Civita. As fitas seriam o ponto de partida para uma pesquisa mais apurada, com mergulhos nos arquivos da Abril e do biografado e extensas entrevistas com aqueles que conviveram com o personagem em sua longa trajetória. O resultado não decepciona. O título é um daqueles que vão fazer parte das obras fundamentais que ajudam a contar a história da mídia, em especial a escrita, no Brasil. É forte a tentação de colocá-lo ao lado do também importantíssimo “Notícias do Planalto”, escrito por Mário Sérgio Conti, por sinal, uma das figuras que viveu com Roberto momentos cruciais e polêmicos. Maranhão começa desfazendo alguns mitos, por exemplo, o da própria fundação da editora. Segundo a obra, a Abril foi oficialmente fundada em 1947, e não em 1950, como sempre se alegou. Tal ato inaugurou inclusive não teria nem tido Victor Civita como o protagonista e sim seu irmão, Marco, que já tinha uma editora com o mesmo nome fazendo sucesso na Argentina. Logo, a Abril brasileira foi fundada para ser uma filial da Argentina, embora sua primeira publicação, já sob a liderança de Victor, que a convite do irmão veio dos Estados Unidos para dirigir a empresa e logo se tornaria sócio majoritário, tenha sido lançada em 1950, daí a confusão. Tal primazia coube à esquecida revista em quadrinhos “Raio Vermelho”, que não fez sucesso. Não se sabe exatamente porque, mas, na história oficial da Abril, o título de primeira publicação caberia a “O Pato Donald”, que na verdade saiu tempos depois de “Raio Vermelho”. Os Civita tem origem na Itália, embora no começo do século XX, a família tenha migrado pela primeira vez para os EUA em busca de melhores oportunidades, daí o fato de Victor Civita ser americano. Após o casamento, Victor voltou para a Itália, onde nasceria Roberto, o primogênito e, alguns anos depois, em uma temporada Londrina, seria a vez de Richard. Com o advento do fascismo, os Civita retornam à América, onde os dois rapazes seriam criados e alfabetizados. A formação americana marcaria profundamente a personalidade de Roberto que, inclusive, considerava o inglês como sua “língua mãe”. O envolvimento com o ramo editorial viria primeiro através de Carlo, que, conforme já dito, fundou a Abril na Argentina e mais tarde convidou o irmão para dirigir a versão brasileira da editora. Victor viria para o Brasil com a família e começaria a implantação da empresa. Após terminar o ensino médio, Roberto voltaria aos Estados Unidos para cursar administração e jornalismo, lá , logo após a faculdade, seria trainee na Time. Voltaria para São Paulo em 1958, a fim de trabalhar com o pai sob a promessa de implementar revistas nos moldes da imprensa americana. Roberto teria protagonismo no desenvolvimento da Abril, especialmente na criação da revolucionária “Realidade” e no final dos anos 60, da joia da coroa, “Veja, um dos temas centrais do livro, mas todo esse processo só foi possível pela ideia de Victor, inédita por aqui, que a princípio todos foram contra, mas que mudou a história da editora : a venda de fascículos em bancas. As coleções implantadas pela Abril, a começar por uma versão ricamente ilustrada da bíblia, foram um sucesso estrondoso e viraram uma marca da empresa. Graças à imensa lucratividade desse tipo de negócio, o grupo mudou de patamar e começou a colocar em prática o seu projeto mais ambicioso, o lançamento de uma revista semanal de informação, nos moldes da newsweek. É aí que entra em cena a figura talvez mais emblemática e polêmica entre as muitas que militaram nas hostes da arvorezinha. O Genovês Mino Carta, já havia trabalhado na Abril em 1960 quando, sem saber sequer dirigir, comandou a redação de “Quatro Rodas”, que seria lançada naquele ano na carona do desenvolvimentismo de JK. Pouco depois, Mino foi para o Estadão onde reformou o Jornal da Tarde, veículo também pertencente aos Mesquita. Com o projeto de Veja, Roberto e Victor decidiram que Carta era o nome certo para dirigir o lançamento e o chamaram de volta. “Veja” nasceu em 11 de setembro de 1968, a bordo de uma campanha de lançamento milionária e com uma equipe gigantesca arregimentada entre experientes e jovens jornalistas de todo o Brasil. Para ser ter uma ideia da ambição da iniciativa, foi montado um curso de preparação para os jornalistas que dela fariam parte, curso montado por acadêmicos da USP e que abarcavam diversas áreas de conhecimento. Com base nesse curso, foram preparados treze “números zeros” a fim de calibrar o perfil do seminário. Em suma, a Abril apostou todas as suas fichas na revista. Apesar da excelente vendagem do primeiro número e da boa circulação dos iniciais, “Veja’ pouco a pouco viu seu desempenho cair e, por volta de 1970, já era um verdadeiro sumidouro das finanças da Abril e deveria ser fechada a qualquer momento. O departamento comercial chegou a oferecer páginas de anúncios gratuitamente para evitar a publicação de espaços em branco. Várias tentativas de recuperação já haviam sido feitas, até que Roberto teve a ideia que seria a salvação : a venda de assinaturas. Graças a uma base cada vez maior de assinantes, a circulação cresceu e começou a atrair anunciantes. A revista estava salva, mas nem tudo eram flores no castelo dos Civita. Mino atuava de forma independente à frente da publicação, como se dela fosse o dono, o que contrariava Roberto. Os conflitos entre o Diretor de Redação e o dono da Editora eram cada vez mais graves. A gota d´água veio com a contratação de Plínio Marcos para ser um dos colunistas, fechada unicamente por Mino, que nem sequer consultou Roberto. As opiniões progressistas de Plínio, avalizadas por Carta, eram uma verdadeira afronta á ideologia de direita e capitalista assumidamente defendidas por Civita. Mino foi demitido em um dos episódios mais controversos da história da imprensa no Brasil e que deixou marcas até hoje. Viraram inimigos para o resto da vida. Carlos Maranhão conta com saborosos detalhes os processos de sucessão na diretoria de Veja, que atingiu seu maior patamar de circulação a partir do início dos anos 80, durante a gestão da dupla Elio Gaspari e José Roberto Guzzo. Também se debruça sobre o período em que Mário Sérgio Conti, outro que viraria persona non grata para os Civita, dirigiu a redação, além dos posteriores. Deliciosas fofocas do dia a dia do jornalismo. Dariam uma ótima série de TV. “O Dono da Banca” também não foge das polêmicas levantadas pela revista, principalmente pelo caráter militante em torno das ideias liberais e, a partir de 2003, do combate ao governo do PT. Nesse aspecto é curioso inclusive o relato de uma visita de Lula a Roberto em uma de suas internações nos últimos anos de vida. Segundo testemunhas, o dono da Abril se penitenciou por alguns exageros na campanha de Veja contra o governo ( Roberto não sobreviveu para ver o segundo governo de Dilma Rousseff e ao radical “engajamento” de sua publicação durante a preparação do impeachment, ou do golpe, se preferirem...) Roberto Civita foi internado na segunda feira de carnaval de 2013 para um procedimento simples : a colocação de um stent para dilatação de uma das veias que ameaçava se romper. Segundo o médico responsável, a chance de complicação era de em torno de 2 %, tanto que sua agenda previa a retomada do trabalho ainda naquela semana. Logo após a cirurgia, no que foi definido como uma fatalidade, a veia se rompeu. Roberto teve uma hemorragia e entrou em coma. Três meses depois estava morto. Apesar das controvérsias e de propagar ideias típicas da elite brasileira, a contribuição de Roberto Civita e do grupo Abril para a consolidação do mercado de revistas e da própria imprensa escrita no país são incomensuráveis e configuram a “O dono da Banca” o status de obra de referência para todos aqueles que se interessam pelo assunto e para o público em geral. Leitura que caberia bem se realizada à sombra de uma árvore plantada há mais de 60 anos.
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