Heroísmo? #43
"14", é uma novela do escritor francês Jean Echenoz, publicada no ano de 2012. A novela leva esse título pois é uma alusão ao início da 1ª Guerra Mundial (1914-1917). É reconhecível a gama de obras literárias (ficção e não-ficção) sobre os acontecimentos da 2ª Guerra, no entanto, são poucas as obras literárias de ficção que tenha como fundo histórico a 1ª Guerra. "14" é uma dessas. O ano é 1914. O espaço é França. O sujeito é Anthime. Anthime, um jovem de 23 anos, vive em um vilarejo no interior da França, Vendeia. Uma vida tranquila, pacata. Sua rotina é preenchida pelo trabalho e casa. Mas, um dia isso muda. Era 1 de agosto, quando Anthime foi recrutado a servir o exército francês na fronte da guerra como um reservista. Não só ele, mas também seu irmão, Charles, e seus amigos, Bossis, Padioleau e Arcenel. Esse é o enredo de "14". As experiências de cinco jovens, servindo como soldados, durante o primeiro ano da primeira guerra. Um relato sobre os bastidores de ser um soldado numa guerra sem vencedores. O autor utiliza de narrativa objetiva para apresentar as situações, os diálogos. Aqui, poucas palavras são suficientes, camadas são indispensáveis. O texto é linear, a caracterização e descrição das personagens e cenários são bastantes visuais, sinestésicas. "14" expõe as vulnerabilidades de ser um soldado durante a 1ª Guerra, diante de circunstâncias consideradas por nós muitas vezes, banais, triviais, principalmente na atualidade. A vida do Anthime e seus amigos está tanto ameaçada em campo de batalha, como fora do campo de batalha. Assim como um tiro ou uma bomba pode matá-los, um piolho, carrapatos, roedores, também são igualmente nocivos, afinal, estamos em 1914! Como tratar de piolhos? Carrapatos? "A situação é simples, estão todos encurralados: o inimigo à frente, os ratos e piolhos em cima, a polícia atrás" (p.97). E é interessante que quase sempre a gente não leva em consideração tais circunstâncias quando vamos estudar um período histórico que envolve guerras. Normalmente, sempre associamos a morte ao campo de batalha, armas, bombas. Outrossim, o livro também relata o desgaste físico e mental que os soldados enfrentavam antes mesmo de entrarem em campo batalha, as longas caminhadas, fome, impossibilidade dormir nas trincheiras, até mesmo o peso dos uniformes, das armas que carregavam consigo. O autor também aborda a condição das mulheres, crianças e idosos, que ao ficarem na cidade, após o exílio dos homens para o campo de batalha, tinham que também enfrentar outra batalha: manter a cidade segura e funcionando. Outro aspecto interessante refere-se à inserção das armas, dos instrumentos de ataque que vão se aperfeiçoando com o andamento da guerra. "Estamos nas primeiras semanas de guerra, e o avião é um meio de transporte novo, jamais utilizado para fins militares" (p.57). Enfim, por ser uma novela curta, qual você consegue ler em poucas horas, me limito as estas considerações. Obviamente, deixo aqui como recomendação a obra "14", para você, leitor, que é curioso sobre acontecimentos históricos que definiram a humanidade, e que reconhece que a literatura ficcional devia explorar mais a 1ª Guerra. Por fim, em "14" não há espaço para heroísmo. Só perdas. Boa leitura!




