O caçador na floresta permitida do futuro não escolhe a caça e atira ao menor sinal ali não tem a lei não tem o empecilho da arma inútil eis que é apenas uma extensão mecânica de si mesmo e nunca falha viver é assim morrer é assim e o prato cheio de cada dia é lembrança distante imagem vaga imagem que se deixou de lado e que agora não precisa mais os pés dizem do chão sua linguagem chão térreo sujo áspero pegajoso nodoso coloidal arenoso chão de teluridez extrema e o caçador finca os pés nas gramíneas largas entre espinhos e bosta de prototapir entre peixes anfíbios que circundam os bretes. O prototapir que sonhamos a vida inteira: atirá-lo de frente frente a frente na maior das covardias coisa que não se pode sequer imaginar existe na floresta permitida do futuro e o caçador assim faz e fica ali comendo a carne do animal abatido até que a última tíbia branqueie o sol da manhã e o fogo do outro dia convida para uma nova investida e ele vai como vamos nós com todo perigo o convite é tácito e brota em qualquer hora dá se como necessidade premente de atirar atirar atirar nos protogansos que sobrevoam a lagoa do nada e que tem dia que é melhor só observar-lhes a geometria. Tu que não pensas em mim já sabe agora sou o caçador o caçador na floresta permitida do futuro um quadro vivo um quadro vegetal inodoro como um cristal de rocha não quero a multidão uma criança encontra a saída do labirinto e olha o paraíso aéreo dos pássaros antigos quer voar eu sei e não te preciso mais para nada nada nada ficar nu no quarto de arbustos e leguminosas e mosquitos e pós etéreos navegantes e depois saber que o guarda-roupas não existe e você é só pele e pêlo no verde verde verde que toma tudo e invade os rios as lagoas vestindo os pedreirios e as altas árvores que de tantos anos crescem para os lados casas de mil famílias amanhã mais uma ave sacrificada e um prototapir tu já viu o prototapir com seus dentes protosalientes e o respiro de fornalha que estremece o lodo as pedras e os galhos do arvorio arvorio arvorio casa refúgio do caçador arvorio morada única e definitiva do caçador na floresta permitida do futuro onde a vida é apenas um acidente físico e onde o sol da manhã é invenção e onde a luz é invenção e onde o espaço é invenção e onde a noite é invenção e onde tudo gira a favor de ti e cresce e vem e desaparece e as aranhas negras pequeninas manchadas de branco escaravelhos roxos salpicados de estrelas mínimas fios invisíveis encrestam e tangem tudo...
O Antilugar da Poesia - Manifesto Poético com Protonathural Filosofia Estética
Jairo Pereira
do Autor
1995
116 páginas
3h 52m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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