Entre a Filosofia e a Teologia (Filosofia Medieval) - Os futuros contingentes e a predestinação divina segundo Guilherme de Ockham

    Carlos Eduardo de Oliveira

    Paulus
    2014
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-13: 9788534939980
    Português Brasileiro

    Liberdade, necessidade, livre-arbítrio, contingência, ciência e vontade. Um antigo debate gira em torno da conciliação desses elementos: se o homem é livre para escolher, é possível que alguém saiba previamente o resultado de suas escolhas sem privá-lo de sua liberdade? Aristóteles defende que não: liberdade supõe indeterminação, e a indeterminação parece implicar a impossibilidade de se saber previamente como algo se dará. Justamente o contrário do que defende a fé num Deus onisciente: Deus sabe exatamente como será nosso futuro e, ainda assim, somos livres. Guilherme de Ockham, frade franciscano do século XIV, apresenta esse mesmo problema a partir de um dilema: o que fazer quando a opinião de Aristóteles, apesar de parecer bastante sensata, também parece contrária ao que asseveram "a verdade e os teólogos"? Para ele, se Aristóteles tiver razão, e se a fé estiver correta na sua compreensão do conhecimento divino, estaremos diante de um novo e mais sério impasse: é possível alguma explicação que descarte a separação entre o conhecimento divino e nossa liberdade? Se não, estaremos condenados a nunca avançar nosso ponto de partida: onisciência e liberdade são compatíveis?

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    Filino Carvalho Neto26/02/2021Resenhou um livro
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    Um problema mportante para a filosofia e a teologia - numa ótima edição

    A questão acerca dos futuros contingentes pode ser bem caracterizada em Aristóteles, no capítulo IX da sua obra "Da interpretação". Boécio retoma essa reflexão e, em Ockham, isso também é tratado. A sentença "amanhã haverá uma batalha naval", por exemplo, sendo verdadeira, será necessária e isso teria graves implicações para o livre-arbítrio e o Cristianismo: afinal, Deus conhece os futuros contingentes? A obra de Carlos Eduardo de Oliveira enfrenta essa reflexão ockhamiana, demonstrando de forma didática (o que é admirável; afinal, o problema é espinhoso e a escrita de Ockham, muitas vezes, quase hermética) como o inglês expõe o seu pensamento. Sim, Deus conhece os futuros contingentes, ainda que não saibamos como isso acontece (isso é assunto para a teologia). Mas essa afirmação não quer dizer, contudo, que Aristóteles teria sido refutado: enquanto o Estagirita concluiria pela impossibilidade de se afirmar ou negar a verdade de um futuro contingente, há que se considerar as diferenças perspectivas em que o mestre da Antiguidade e o "Venerabilis Inceptor" transitam, cada um. O ponto de vista do eterno, de um Deus que é onisciente (como já havia assinalado Boécio, anteriormente) é diverso de um deus que esteja na ordem do tempo. Com isso, Ockham salvaguarda a reflexão aristotélica. A edição é composta, ainda, de traduções de textos de Ockham que versam sobre o assunto. Um apanhado bastante pertinente, ainda que a leitura não seja das mais fáceis. De qualquer modo, uma obra importante e pertinente.

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