O Animal de Estimação e Outros Contos -

    Raphael Gomes

    Giostri
    2016
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-13: 9788581088501
    Português Brasileiro

    A obra é composta por 29 histórias ligadas pela temática do fantástico e do absurdo. Do conto de abertura e seu animal nunca visto, cujo apetite não para de crescer, ao conto final em que uma diminuta mulher habita o guarda-roupa de um homem, o livro passa por histórias cíclicas, com personagens presos em situações que não podem dominar. Ratos crescem na cabeça de um homem, outro se vê inexplicavelmente perseguido por desconhecidos numa noite em uma cidade estranha, gerações de mulheres são liga das por seus nascimentos conturbados... Do humorístico ao onírico e ao angustiante, o absurdo dos textos são metáforas do absurdo real que não vemos.

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    Alyne C14/10/2016Resenhou um livro
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    A obra inicia sua jornada pelo fantástico e absurdo com um padrão que se fará presente em todos os contos do livro: a abordagem de reflexões realistas através de aspectos inverossímeis. No conto de abertura, "O Animal de Estimação", conhecemos o cotidiano do faxineiro Gregório, logo após o seu encontro com uma criatura sem espécie definida, que acaba se tornando o seu animal de estimação. O autor caminha pela construção da figura imprecisa do bicho, que recebe o nome de Juvenal, priorizando a definição de suas características comportamentais em detrimento das físicas. Com isso, Juvenal assume um caráter enigmático que prende o leitor e o cativa por seu aspecto doméstico e carismático. Porém, ao longo do conto, uma tensão é construída e a pespectiva dúbil da mascote é retomada por Gomes. A partir desse ponto é possível observar todo o limite da relação dono e criatura. Juvenal começa como subordinado, mas Gregório assume essa posição quando começa a depender excessivamente do excêntrico animal para receber o reconhecimento da comunidade em que vive, algo que nunca tivera antes. Damos então um belo passeio pela subjetividade das relações humanas com o destino de Juvenal e seu dono, que traz para foco a agonia e o medo do desconhecido, enquanto ainda analisa o caráter mesquinho e fútil da humanidade através da metáfora do fazendeiro que nunca pode ser contrariado por ser dono de um patrimônio gigantesco. O tema é retomado de forma incisiva no conto "O Medo", no qual somos apresentados à uma criatura também indefinida, mas inanimada e sem interior. Seu aspecto oco representa seu cunho imensurável. O plano dos cientistas é transportá-la para bem longe da população, pois o ser humano teme tudo aquilo que não compreende. O lugar escolhido para seu isolamento é um sanatório. Essa escolha reflete uma crítica de cunho social do autor, referente ao tipo de tratamento que a sociedade impõe ao que não lhe é conveniente, pois "estava claro que, além dos loucos, o sanatório servia também para depositar tudo que a população da cidade não queria ter sob seus olhos". Ainda nessa perspectiva, o conto "Uma visita agradável" faz outra crítica social, dessa vez aos sistemas punitivos atuais. Somos apresentados à uma prisão através de definições burocráticas que fazem métodos exagerados parecerem normais. O leitor é a visita que dá nome ao conto, recebida pelo Estado em meio à sua mais nova criação: uma retomada aos conceitos da Lei de Talião. No contexto contemporâneo é cada vez mais comum notícias de pessoas assassinando umas às outras por seus próprios punhos. "Mulher morta após boato em rede social é enterrada em Guarujá" foi uma das notícias mais chocantes de 2014. Gomes acerta em cheio ao criar uma hipérbole dessa questão em um de seus contos. Os demais contos seguem o preceito de oscilação entre a realidade do cotidiano e o irreal do absurdo. O autor se mostra bastante habilidoso ao relacionar os rudimentos fantásticos ao crível, pois o maior desafio do gênero fantástico é o de trazer para o texto elementos completamente inimagináveis que não retirem por completo o seu caráter plausível. Os contos de Gomes são repletos de surrealismo: cabeças vivendo sem corpos, recém-nascidos que já nascem falantes, ratos aninhados em cabeças humanas, tatuagens que surgem ao invés de serem feitas e animais desconhecidos pela humanidade. Ainda assim, essas estórias não se tornam meras fábulas de um mundo paralelo. A agonia e o suspense que elas evocam só estão ali por ainda conservar esse elo com o acreditável. Isso então faz o leitor imaginar-se naquela mesma situação e naquelas mesmas consequências, pondo-se no lugar dos personagens e se identificando com os mesmos por conseguir se enxergar em seus lugares. Exemplo disso é o conto "Trompe l'oeil", em que testemunhamos o relato de um professor que, após incansáveis horas de trabalho, passa a enxergar em suas próprias mãos certos padrões das pinturas de Picasso. O elemento de seu trabalho se fundiu ao elemento mais importante de sua rotina, suas mãos. Quem nunca tomou café demais sem dormir por um bom tempo e deixou de raciocinar e enxergar bem? É nesse momento que entra o elemento de dúvida: mas e se, por algum motivo, isso aparecesse nas suas mãos? Como agir? O que fazer? Essas dúvidas nos levam a devorar as páginas do livro a fim de saber a resposta, de ter aquela satisfação de formar a gestalt. No entanto, Gomes toma a atmosfera do incerto como fundo para a maioria de seus desfechos. É isso que mantém tais estórias flutuando em nossas mentes por tanto tempo após a leitura. Passando da sátira ao onírico, do engraçado ao angustiante, do real ao irreal, o autor fecha o livro com o conto mais marcante de todos, "Os bichos". Nele, o protagonista Eduardo acaba por descobrir que uma pequena mulher vive escondida no armário de sua própria casa. Nota-se o sentimento de medo que lentamente se transforma em curiosidade mórbida, graças ao hábito e à complacência de Eduardo acerca da pequena intrusa. O livro fornece uma grande diversidade de narrativas e estilos literários, o que não deixa outra alternativa a não ser seguir com a leitura. Se um conto não agradou, o próximo pode te surpreender, dada a variedade nos temas e estéticas criadas pelo autor. É como se o leitor estivesse abrindo uma caixa-surpresa num misto de curiosidade e receio, numa dimensão entre a que estamos agora e uma outra desconhecida.

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