Eu tive uma longa história de amor com a Susan e com este livro. Ler os diários dela foi como acompanhar, em silêncio, os bastidores de uma mente brilhante. Não foi apenas a simples leitura de anotações pessoais, mas um mergulho em uma vida que se construiu entre ideias, dúvidas, paixões, inseguranças e descobertas. Quase como um despir da escritora.
Foram meses de leitura, sempre aos poucos, porque não é um livro que se devora, mas que se risca, marca, faz anotações e ganha post-its. Cada entrada carrega um recorte do que Sontag era e do que se tornava: uma intelectual imensa, mas também uma mulher vulnerável, inquieta (e bota inquieta nisso), cheia de contradições. Justamente essa mistura a torna tão fascinante. Há momentos de genialidade reflexiva, em que ela discutia arte, filosofia, literatura, cinema — sempre com a clareza que a consagrou. Mas também há fragilidades expostas sem pudor: dúvidas sobre si mesma, sobre os amores, sobre o tempo.
E talvez seja nesse contraste que o livro me cativou e encontrou sua força dentro de mim — porque humaniza alguém que, até então, eu via em um pedestal distante. "— Tive dificuldades tão imensas pensando sobre mim mesma, mantendo-me ligada a mim mesma neste último ano. Apenas as mesmas velhas e bolorentas reflexões."
Terminar a leitura foi sentir que estive próxima demais de uma vida que não é minha, mas que se comunicou em tantas pequenas dores e alegrias que acabou por me parecer familiar. Foi ler uma mulher sendo feminista, sendo incrível, e que nos permitiu acessar esse lado íntimo dela com tanto privilégio.
No fim, fechar o livro foi como me despedir de uma amiga, alguém que já tinha virado companhia — e talvez seja isso o mais bonito: perceber que sua força não está apenas em suas obras ensaísticas, mas também nesse registro cru e íntimo de existir.