Não dá para negar que ler algo novo da Stephenie Meyer anos depois do seu último lançamento gera alguma expectativa. Alguns amam, outros odeiam. Sou do time que sim, se apaixonou pela saga Crepúsculo, mas que hoje, alguns anos mais experiente com o gênero YA sabe reconhecer as inúmeras falhas que a autora tinha, e que viu em A Hospedeira uma opção muito mais interessante. Surge então em minhas mãos A Química, lançamento da escritora, que marca sua viagem a um gênero mais adulto e contemporâneo. Porém, essa experiência também me ensinou as expectativas nunca vão para onde se espera e as mudanças nem sempre alcançam seus objetivos.
A Química conta a história da Dra Juliana, uma médica especializada em interrogatórios e tortura, que após ser traída pelos seus empregadores, leva a vida escondida, sempre à espera do pior. Porém, ao receber uma nova missão, se vê diante da possibilidade de conseguir sua liberdade de volta e salvar o mundo de uma praga mortal. No entanto, a rede de intrigas e segredos é muito maior do que ela inicialmente pôde imaginar.
Stephenie acertou na escolha do enredo e do cenário, aproximando-se mais do gênero de crime e trazendo personagens inteligentes e uma história bem mais complexa que suas anteriores. No entanto, sua grande característica, a capacidade de nos fazer nos apaixonar pelos personagens se perdeu completamente. Juliana aka Alex, com certeza, traz todo o estereótipo de mulher forte, bem-resolvida, mas carece totalmente de empatia e sua paranoia excessiva distancia-se demais da realidade que a personagem poderia ter. Conseguimos entender a personagem, mas nunca nos colocar no lugar dela e sentir suas escolhas. Talvez isso se deva também a construção do seu interesse amoroso (sem spoilers), que beira tanto a perfeição como qualquer mocinho que Stephenie já criou, porém não se encaixa ao modelo de homem adulto que a autora proponhe. O melhor personagem com certeza é o terceiro integrante protagonista (NÃO se assustem, não tem triangulo amoroso, isso ela aprendeu haha), que traz uma leveza maior a história e por que não uma maior humanidade. No entanto, sua participação é bem subexplorada.
O desenrolar da narrativa é competente e acredito que seja o ponto forte do livro, uma vez que a história te prende e é bem fluida, com cenas de ação competentes. Só achei a linguagem da autora com um tom um pouco "forçado" para a proposta do livro e as descrições um pouco detalhadas demais, mas nada que realmente incomode a longo prazo.
Stephenie voltou à ativa com um saldo positivo e merece crédito por ter saído de sua zona de conforto. No entanto, toda magia que permeou sua carreira parece ter se esgotado, uma vez que não vejo como esse livro possa alcançar o sucesso dos anteriores. Evoluir e mudar sempre é bom, mas por vezes é necessário sublinhar que a essência criativa não pode se perder, aquele aspecto que faz com que as pessoas leiam sua obra e saibam que é sua. Se Crepúsculo foi uma grande sacada isolada, a autora ainda tem muito caminho a percorrer para provar-se merecedora de seu sucesso.